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SUB-VERSÃO

Ágatha, ou o dia em que chorei em sala de aula

Hoje eu chorei em sala de aula. Um choro que começou tímido, e que eu tentei a todo custo aplacar, mas que ao final, veio à tona sob a forma de lágrimas pesadas e sentidas, que, claro, não passaram despercebidas aos olhos sagazes de meus alunos.

E se você está pensando que foram eles, ou um deles a razão do meu choro. Não! Eles são maravilhosos, adolescentes cheios de vida e sonhos, que nunca, nunca me fariam chorar, não de tristeza.

Chorei, porque ainda acredito que é preciso educar também as almas, relembrando-as vez por outra de sua vocação, sensibilizando-as para reconhecer na dor do outro sua própria dor, ainda que relativizada. E por isso, sugeri, depois de realizar a leitura de uma notícia a respeito da morte da menina Ágatha, que produzissem um texto, no qual assumiriam o papel de Ágatha ou do policial que a atingiu com um fuzil.

Primeiro, precisariam posicionar-se diante do fato noticiado, assumindo uma das duas versões, a da família da menina e dos moradores da região em que tudo aconteceu, ou dos policiais, que insistem em afirmar que havia um confronto no local.

Não iria julgá-los por sua escolha, queria que tivessem liberdade de optar por um dos dois lados, e assumindo o personagem, descrevessem como teria sido seu dia, naquele triste 20 de setembro, até o momento do disparo, aproximadamente às 21h30.

Proposta feita, eles prontamente aceitaram o desafio que lhes propunha essa professora apaixonada pela escrita e pela reflexão.

Bom, o fato é que um dos textos foi o que me levou às lágrimas. Escrito por duas meninas, duas meninas! Essa professora aqui não aguentou o baque! E sabem por quê? Porque Ágatha poderia ser umas delas. Mas Ágatha nunca chegará ao sétimo ano. Ágatha não aprenderá sobre os verbos transitivos e intransitivos, nem me verá andando pela sala, na minha doideira de explicar de forma prática o que seja esse transitar. Não, ela não escreverá textos como esse dessas meninas. Ágatha, a quem foi privado o direito sagrado e constitucional da vida, tão precocemente, aos oito anos de idade, não lerá nenhum dos textos escritos em sua lembrança. Ela não rirá comigo das piadas que fazemos em sala, nem dos textos engraçados que lemos, nem participará dos meus sorteios de livros, nem saboreará os doces, com que às vezes, presenteio meus queridos. Não! A ela foram privadas todas essas experiências.

E os santos devem estar agora chorosos, porque não poderão presentear-lhe com seus tradicionais doces, porque o Estado, o inescrupuloso Estado tratou de adiantar-se ao tempo, presenteando-a com uma bala, mortal. Um tiro de fuzil nas costas de uma menina de oito anos. Vocês compreendem o que seja isso?

A justificativa: Estava acontecendo um confronto.

Por favor, esse país é que é o real confronto! Toda essa violência gratuita instaurada e alicerçada em discursos de ódio é que é o real confronto. Um confronto que eu gostaria de ser capaz de evitar, mas que me constrange e encurrala diariamente nos noticiários, que por sua vez, insistem em tratar seres humanos como meros numerais.

O Brasil, meus queridos, é também meu maior confronto pessoal, porque nele está depositado meu amor e todo meu asco. Porque nele, e em adolescentes como meus alunos, é que ainda resiste minha esperança, ainda que todo o resto colabore para sua morte.

O Brasil que matou Ágatha, privando-a de viver tantos e grandiosos sonhos, é o mesmo que segue matando também de fome, ainda que o neguem. As balas não vão parar, acreditem. E essa professora vai seguir chorando, enquanto cumpre seu trabalho de ensinar Língua Portuguesa e alguma empatia.

Observação: Com a devida autorização dos pais das autoras do referido texto, pretendo publicá-lo nesse mesmo espaço semana que vem.

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