Além do início do ano civil, que começou em primeiro de janeiro, agora começou pra valer o ano de 2026 com o fim das férias escolares de estudantes Brasil afora!
É bem verdade que algumas escolas já iniciaram as aulas, mas uma parte delas retomou os trabalhos agora, no início do mês de fevereiro.
E qual a novidade?
Ao menos para 100 escolas públicas da rede estadual paulista de todo o estado, a “novidade” é a implementação do modelo cívico-militar proposto pelo então governador do estado – Tarcísio de Freitas (Republicanos) e seu secretariado – após uma longa batalha judicial e manifestações de resistência de vários grupos contrários à medida.
Ainda assim, não há consenso na comunidade escolar sobre o modelo adotado. A defesa de que a presença de policiais aposentados, ocupando o papel de monitores, pode colocar ordem, manter a disciplina e o controle no espaço de tal modo a evitar a prática de bullying, brigas e preconceito, por exemplo, parece seduzir alguns, mas camufla uma realidade um tanto perversa quanto cruel...
Enquanto filhas e filhos das classes mais abastadas circulam livremente em espaços escolares e contam com uma formação seleta e qualificada, as crianças e adolescentes das classes mais pobres e populares são vigiadas e mantidas sob controle, de modo imposto, vertical e autoritário.
Disciplina que padroniza e enquadra toda forma de individualidade, porque não se pode, dentre outros, ter cabelo colorido, usar piercings ou qualquer outra roupa que não seja o uniforme adotado. Uma espécie de formação de “soldadinho” que bate continência e abaixa a cabeça para autoridades.
Ainda que regras e disciplina sejam parte da convivência coletiva e, portanto, necessárias em qualquer espaço – reconhecendo que não há liberdade irrestrita e que tê-las é parte da sociabilidade – esse não é o papel central das escolas. Nesses espaços, a adoção de normas deveria cumprir um papel pedagógico, de respeito e harmonia entre as pessoas. Não raro, caberia o diálogo, a construção coletiva e a empatia na organização de um espaço de convivência que fosse prazeroso, respeitoso e coletivo.
Eventualmente, alguns pais e mães se colocam favoráveis ao modelo cívico-militar, talvez em razão de suas limitações na educação da prole, delegando para a escola todo esse papel e desconsiderando a parte que lhes cabem no processo de educação de seus filhos. Mas esse não é o centro da questão!
O problema central desse tipo de escola é “mais embaixo”, como popularmente se costuma dizer numa analogia ao ditado “o buraco é mais embaixo” – e bem mais embaixo, diga-se de passagem...
O problema da educação pública nesse país – e de modo específico no estado de São Paulo – é a ausência de financiamento público, o sucateamento estrutural e sistêmico (físico e pedagógico) dos espaços, o rebaixamento salarial de professores e demais profissionais, ausência de equipes multidisciplinares, a adoção de métodos de ensino medíocres – como a Reforma do Ensino Médio em vigência desde 2025 – o que vai na contramão de uma formação cidadã, transformadora e crítica, além de todo tipo de ataques e ingerências ideológicas, fundamentalistas e reacionárias, incapazes de compreender a escola como um espaço de formação e transformação da vida de seus estudantes.
Certamente, o problema não é o cabelo colorido!
Não há ausência de recurso, mas sim como o recurso é usado. E isso uma escolha política. A título de exemplo, a adoção das escolas cívico-militares vai custar R$ 17 milhões a mais por ano em razão dos pagamentos dos militares aposentados, cujos salários serão maiores que o próprio piso salarial dos professores da rede estadual paulista, atualmente no valor de R$ 5.565.
2026 é um ano eleitoral, momento em que iremos eleger ou reeleger nossos representantes políticos: presidente, governador, senadores e deputados. Essa escolha também passa por nós. Inspirada na celebre frase do livro “O Pequeno Príncipe (1943), de Antoine de Saint-Exupéry” quando nos diz: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, poderíamos dizer “tu te tornas eternamente responsável por aqueles que eleges”!
.png)
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
0 Comentários