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Crônicas de um Sol Nascente

Alguns mitos...

Ao conversar com amigos e familiares no Ocidente, é comum deparar-me com a seguinte indagação: “É verdade que no Japão...?”. Pergunta esta finalizada, geralmente, com alguma informação, se não falsa, um tanto quanto exagerada. Equívocos que, diga-se de passagem, considero perfeitamente naturais; uma vez que, em virtude da grande distância geográfica, a criação de mitos a respeito da “Terra do Sol Nascente” acaba mesmo ocorrendo.

Por exemplo, uma das histórias que mais me chamam a atenção é a que sempre vejo estampada em redes sociais: a de que o Japão é o único país “em que o Imperador curva-se perante um professor”. Desculpem se corto o coração de meus idealistas amigos, mas isso não é verdade. Sim, como escrevi em uma crônica anterior, os mestres, no país, são realmente tratados com respeito. Porém, como qualquer outro cidadão, é o professor quem tem a obrigação de curvar-se perante o Imperador: jamais o contrário.

Aliás, a própria figura do Imperador – apesar da supracitada obrigatoriedade da reverência – já não tem um caráter mítico. Principalmente para os jovens japoneses, a quem a Família Imperial é apenas uma página nas revistas de “fofocas”. Somente para que tenham uma ideia, no dia vinte e dois de outubro, data da coroação do novo imperador, não seria exagero afirmar que, em Tóquio, havia mais jovens nos cinemas assistindo ao “Coringa” do que nas ruas para saudar o soberano. O que acho até justo: considerando-se que o tal “evento de pompa” é apenas mais um motivo para que os impostos sejam aumentados (palavras estas, aliás, que escutei da boca de um estudante, no dia seguinte).

E, finalizando por hoje o assunto dos mitos a respeito do Japão, não poderia deixar de tratar das “maravilhas tecnológicas”. Afinal, para alguns de meus amigos e familiares, parece que vivo em um mundo semelhante ao filme “De volta para o futuro”: com trens voadores, por exemplo. Exatamente: estou me referido ao famoso trem-bala. Certa vez, um colega perguntou-me: “Você vai para o trabalho de trem-bala?”. E então respondi: “Sim, quando preciso ir de uma cidade a outra... muitoooo raramente”. Isso porque – para esclarecer – o trem-bala é um sistema utilizado para ligar cidades distantes (caso de Osaka e Tóquio), e não um meio de transporte do dia a dia – que é, como em muitos centros urbanos, os nada velozes metrôs.

A lista de mitos é grande, portanto – incluindo as confusões entre os costumes do Japão e da China. Mas, sendo sincero, há alguns desses equívocos que até poderiam ser evitados (livrando, assim, o indagador de passar uma certa vergonha): especialmente em tempos de Google...

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases). Em novembro, o autor foi um dos contistas premiados (2º lugar) no X Festival “Pérolas da Literatura”-SP/ 2019.

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