Aninha e os bem-te-vis

Aninha foi naquela manhã acordada pelos bem-te-vis, que excepcionalmente emitiam um “bem-te-ver” mais agudo que antes. Aninha de fato nunca os ouvira assim tão estridentemente alegres. E foi essa alegria, assim, súbita e gratuita que tomou conta do ser de Aninha logo nas primeiras horas da manhã e a arrancou da cama com um sorriso preguiçoso.

E enquanto se deliciava com café e torradas, Aninha pensava na vida e na alegria gratuita de vivê-la, e de como era gostoso o aroma do café, feito sempre “ a olho”, com intuição e uma boa dose de poesia, já que essas duas caminham juntas. E nos bem-te-vis que tão graciosamente haviam vindo acordá-la; esses serezinhos abençoados com uma voz e uma frase inconfundíveis...

Parece mesmo que os animaizinhos eram, nessa ocasião, arautos do Eterno, incumbidos da preciosa missão de acordar Aninha, abrindo com sua voz seus ouvidos e com sua graciosidade, seu coração, para trazer-lhe à lembrança a dádiva que é acordar!

Para relembrá-la de como é simples viver e da simplicidade que a vida exige e de como insistimos em complicá-la.

E Aninha seguiu seu dia, dessa vez consciente de viver, e distribuiu mais sorrisos que geralmente ousava distribuir, e se perdoou mais por não ser perfeita ou aceitável, e perdoou seu próximo, porque ambos compartilham da mesma essência passível de erros, e andou descalça pela casa, porque isso é um hábito de pequena, e não devemos nos livrar da nossa criança interior só porque o mundo nos pressionou a ser reféns da mediocridade. E Aninha se permitiu comer um pouquinho de chocolate, vestir seu vestido mais bonito, pintar os lábios de vermelho, soltar os cabelos e as amarras de sua alma pueril e poética.

E quem viu Aninha naquele dia, notou um brilho a mais nos seus olhinhos verdes, era um brilho misterioso, desses que intrigam qualquer um. E quem a viu naquele dia, notou também que Aninha era a mesma menina travessa de sempre, apenas com alguma motivação secreta para a felicidade. Teria sido o amor? Ou alguma notícia muito boa?

Não, foram os bem-te-vis, foi o sol dedilhando seu rosto através das frestas da janela, foi a Graça abrindo as janelas de sua alma para a consciência da beleza de viver!

E ainda há quem pergunte, intrigado, o porquê desse brilho em seus olhinhos. Para estes, a menina travessa responde com um sorriso espontâneo: é Deus!

Feliz Ano-Novo!!!

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