Foto: Henrique de Campos
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SUB-VERSÃO

“Aquele que não tiver pecado algum, que coloque a primeira pedra”

Pedras para impedir que moradores de rua se abriguem debaixo de viadutos. Seria uma questão estética? Acaso estariam essas pessoas atrapalhando a ordem estética da cidade? Ou o caso é mesmo de tentar ocultá-los por serem suas existências motivo de vergonha?

Se for esse o caso, só me resta constatar que já não há vergonha alguma há muito tempo. Brio mesmo, sabem?

Essas pessoas em situação de total vulnerabilidade, que acabam fazendo das ruas seu lar, não podem ser evitadas, pelo contrário, é preciso que, cada vez mais, nós, enquanto sociedade, os enxerguemos, e os enxerguemos tal como são: seres humanos como nós, que merecem o mínimo de dignidade.

Mas como enxergar o invisível, se já treinamos nossa visão para ignorá-lo? Já não conseguimos mais reconhecer nossa irmandade...

Padre Júlio consegue. Padre Júlio tem os olhos de Cristo. Padre Júlio tem o olhar compassivo e misericordioso de Cristo. Chego mesmo a dizer, e isso sem nenhum receio de estar cometendo alguma heresia, que Padre Júlio é Cristo em São Paulo. E por ser Cristo, não há nele um pingo sequer de medo ou covardia. Ele transborda amor, e onde há amor, não existe medo.

Por isso, a belíssima imagem dele empunhando uma marreta, em protesto às pedras que foram colocadas debaixo dos viadutos, a fim de evitar a presença de moradores de rua ali, é para mim, sinônimo daquilo que chamo de bondade genuína, porque bondade exige coragem.

Padre Júlio, um senhor de 72 anos, ousa a coragem de ser misericordioso em dias como os nossos. Isso, além de me constranger, me emociona profundamente.

Júlio é um Cristo enfurecido enxotando os vendilhões do templo, Júlio é um Cristo estarrecido diante do horror em que se converteram seus filhos. Júlio é um Cristo passional, movido por um amor e por uma obediência insanos por seu Pai e pelos filhos seus. Júlio é o pai amoroso daqueles a quem a vida renegou colo. Júlio é o conforto dos desvalidos, a esperança militante, o amor incondicional, sobre o qual tão pouco sabemos nós. Júlio é Pedro, pedra sobre a qual Cristo fundamentou seu amor em São Paulo.

A marreta de um sacerdote católico constrói humanidade, enquanto que o trabalho ardiloso dos homens poderosos a desconstrói cotidianamente.

Não, não era só um padre empunhando uma marreta, era o próprio Deus enfurecido, saindo em defesa dos seus muito amados.

 

 

 

 

 

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