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Crônicas de um Sol Nascente

Aqui é Brasil!

“Essa gente que vive lá fora só fala mal do Brasil”. É assim que a miopia nacionalista rotula os brasileiros que, como eu, ousam fazer uma ou outra crítica ao país onde nascemos. Como se o fato de criticar fosse falta de amor às raízes, quando é justamente o oposto: criticar é sobretudo, sim, um ato de amor; pois ninguém vai perder tempo tentando apontar os erros de algo ou de alguém com o qual não se importa.

Não sei se fazem alguma ideia, mas ser brasileiro no exterior é, antes de tudo, uma constante defesa de nossas raízes. É não deixar se abater e até levar com um certo bom humor quando sofremos algum preconceito. Agora, cegueira patriótica, além de ser uma tremenda burrice, no exterior não funciona. De modo que o mais sensato mesmo é tentar transmitir um pedaço de nossa cultura, mas sem esconder que viemos de um país com muitos problemas (caso contrário não sairíamos dele, não é mesmo?).

Em minhas aulas, assim como nas crônicas que escrevo, não escondo as falhas e os problemas criados pelo nosso “jeitinho brasileiro” de ser. Principalmente porque acho que temos um grande mal: “a arrogância cultural”. É aquela idiotice de achar que brasileiro é melhor e mais esperto do que os outros. Por exemplo, adoramos fazer piadinhas de turcos, japoneses, portugueses etc; mas quando somos nós os alvos da gozação, pronto, lá se vai o nosso bom humor – e nos sentimos ofendidos. Isso porque podemos gozar da cara dos gringos, mas jamais o contrário. Ora, onde já se viu?!

Certa vez, li uma crônica do genial Stanislaw Ponte Preta em que ele ironizava exatamente essa questão de o brasileiro querer “ser respeitado sem respeitar os outros”. Era uma briga de bar em que um alemão desafiava – e nocauteava – a todas as nacionalidades. Chegou a vez do brasileiro e... apanhou do mesmo jeito – segundo Stanislaw, “pros brasileiros perderem essa mania de pisar macio e pensar que são mais malandros do que os outros”.

É isso. Somos só mais um povo na Terra, como outro qualquer. E, como tal, temos coisas boas e ruins. Agora, querer forçar a imagem de que somos melhores que os outros só cria problemas para nós mesmos; uma vez que ilusão de grandeza jamais gera o verdadeiro crescimento.

Sim, sou brasileiro e vou continuar, como os meus críticos dizem, a “falar mal do Brasil”. Enquanto isso, meus alunos e meus amigos japoneses continuarão conhecendo os vários “brasis” que existem: o do Carnaval, o da feijoada, o da política, o da literatura... Uma vez que, sim, sempre cito o Brasil em minhas aulas – e já fui responsável até mesmo para que alguns alunos se tornassem fãs de Jorge Amado e de Machado de Assis, entre outros autores brazucas.

Sim, senhor, no Japão, falo de todo tipo de Brasil: inclusive sobre aquele Brasil que sabe reconhecer os próprios erros.

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quinhentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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