Ganhei 365 dias em 2014.
Contabilizando-os, vejo em colunas distintas o que fiz deles, além de incluí-los nos demais 22630 dias que recebi nos últimos sessenta e dois anos. Alguns brilharam ao sol, outros se molharam na chuva e outros tantos arderam nos verões ou enregelaram-se nos invernos.
É certo que a pele perdeu o viço e o olhar um pouco do brilho; que emoções surgiram e desapareceram; que lágrimas foram enxutas e que sorrisos foram perdidos...
É certo também que em alguns deles algumas pessoas chegaram com alarde e outras partiram silenciosamente...
Mas há as que permaneceram. As que chegaram em tempos idos e aqui estão, firmes, presentes, segurando na minha mão.
Há as que se foram para atender chamadas urgentes e outras porque, ao meu lado, ficaram impacientes.
Há as que morreram, as que deserdaram, as que pouco amaram.
E eu as amei. Todas!
E mesmo as amando, as deixei ir. Sem exceção! Não quero em meu peito restos mortais, cinzas, saudades póstumas...
Quero o sorriso das que ficaram, o toque das suas mãos, o timbre de suas vozes, o calor de seus abraços.
Mais alguns minutos e 2014 parte...
Juntar-se-á àqueles todos outros anos que empilhei, cataloguei, arquivei.
Arquivo morto que insisto em rever, de quando em quando, principalmente neste período de balanço anual.
Sem as máscaras que, por certo, me protegeriam de eventuais ataques dos ácaros, desato os nós das caixas e eis que surgem: a minha infância de menina pobre, com alguns hábitos de menina rica (chocolates Kopenhagen – bonecas e brinquedos no Natal, brincos de ouro com pedrinhas de rubis, anéis de chapinha, pulseiras de prata, vestido azul com bolinhas brancas e sobressaia, blusa de laize, sapatos brancos e meias brancas, cabelos compridos divididos em duas grossas tranças).
O balão que ganhei de presente de aniversário e que foi tão alto e nunca mais o vi, assim como tantos sonhos que abortei.
Por conta da poeira acumulada, começo a espirrar e meus olhos lacrimejam justo quando começo a folhear o álbum de família: minha mãe e seus olhos azuis, meu avô e sua cadeira de balanço, meu pai e sua camionete de três rodas, a relojoaria e a ótica de meus avós. Tia Joana e seu rádio de pilha, tia Sila e as balas de coco, tio Olympio e seu chapéu, tio Flávio e os livrinhos de história onde aprendi a ler.
Estou absolutamente certa que esta caixa é mágica, pois nem as traças e cupins dão conta de seus guardados.
Quanto mais o tempo passa, mais se avivam suas cores e mais presentes estão os ausentes.
Na caixa da adolescência estão as primeiras amigas, o cinema aos domingos e o footing na praça. Os cabelos ainda eram compridos e o salto era chanel.
De repente adulteci, fui para o primeiro emprego, fiz faculdade, cresci. Paguei minhas próprias contas, amei por diversas vezes e outras tantas me enganei.
Juntei novos amigos aos antigos que conservei e descobri que a vida é mais que ter, é mais que ser, é mais que dar. É viver.
Agora com os cabelos curtos e grisalhando, quando o rosto perde o formato e as pálpebras ficam flácidas, fitas de todas as cores se mesclam fechando mais uma caixa.
Reaperto alguns nós, reavalio os valores e a fecho com outras cores. Talvez da serenidade ou do dever já cumprido. E até com a da surpresa do caminho ainda a ser percorrido.
Percebi também que não aprendi a andar sozinha e que preciso ainda de todos os meus queridos.
Henriette Effenberger – 31 de dezembro de 2014.
Associação de Escritores de Bragança Paulista - ASES
0 Comentários