Banalização

Eu sou do tipo de pessoa que ainda fica chocada ao tomar conhecimento de algumas notícias. Ainda não consegui desenvolver um sistema de defesa que me torne indiferente à dor alheia, talvez porque eu não a compreenda como alheia, “a dor do outro”, porque de fato, não há outro, somos todos semelhantes e próximos em nossas alegrias e tristezas. E durante essa semana foi assim, me senti horrorizada ao saber que um jovem foi morto a facadas porque questionou o preço de um restaurante. (Constava um preço da tabela, e depois, o proprietário quis cobrar outro, obviamente, mais alto, que o cliente, um estudante, se negou a pagar. Discutiram, e o dono acabou concordando em cobrar o preço original, mas... deu três facadas fatais no estudante, quando este deixava o local).

Eu me sinto violentada de verdade quando vejo essas coisas, e não estou fazendo drama ou pretensamente querendo me autointitular “a boazinha”, não, mas, eu fiquei pensando... Poxa, nem que o cara tivesse saído sem pagar a conta, será que o dinheiro de uma refeição vale mais que uma vida?

Eu devo ser mesmo um bicho estranho e alheio à realidade que me cerca, porque eu não consigo nem encontrar um único adjetivo que se preste a descrever o que seja um ato como esse. E não é a morte o que me assusta, e sim, a que ponto a vida foi banalizada.

Pode soar paradoxal, mas a gente morre todo dia, um pouco por dia, aos poucos é que a vida se esvai, e nem nos damos conta. Não há porque temer o mal que nós mesmos nos causamos. E é tanta gente desumanizada, covarde pro amor, que o mundo chega a ficar feio e cheirar à morte. E a morte em si, não se deixem iludir por falas contrárias, é apenas o começo da vida plena.        

Apenas os poetas e os loucos é que ainda conseguem enxergar alguma beleza nesse mundo que se opõe a ela e ratifica diariamente sua vocação para o feio e o mal. Até quando resistiremos?

Se o amor resiste mesmo a tudo e se foi de fato ele quem nos trouxe à existência, havemos de, ainda que isso pareça ilógico e distante, convergir para ele. Quando nossas doutrinas e todo nosso egoísmo forem postos de lado, quando de fato e em verdade, aniquilarmos nosso ego teimoso e, literalmente egoísta, talvez possamos experimentar do Amor, estabelecer sintonia com ele. Parecemos muito distante disso, não é?

Se o que nos faz um e nos reaproxima de nossa Essência é o amor, sim, estamos de fato a léguas dessa sintonia com o Bem, mas por outro lado, se o amor é mesmo essa força absurdamente potente, capaz de pôr o universo em movimento e sustentar por si só tudo o que nele existe, talvez ele seja alado e rápido o suficiente para nos redimir de nós mesmos. No amor, há sempre tempo, porque ele não conhece essa convenção meramente humana e falha, e, portanto, não se limita a ela.

Crer no amor é desafiante e ao mesmo tempo encorajador, mas não é, de maneira alguma, fácil. Meu desejo é, então, que tenhamos todos um ano muitíssimo difícil, exercitados no e para o amor. Num mundo que, aparentemente sucumbe ao caos da maldade e do desamor, ousar amar é um ato divino.

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