Menina arredia, ela parecia ter nascido para contrariar toda e qualquer ordem imposta. Desde muito pequena, fora dona de si, o que lhe custara severas críticas, e o título de gênio ruim.
“Essa daí é do contra”, diziam. “Ô, menina teimosa!”, diziam outros. E ela não entendia o porquê desses rótulos todos que lhe eram arbitrariamente atribuídos. Ela só era, só queria continuar sendo, si mesma. E acaso isso era algo ruim?
Ruins eram as acusações que desde muito cedo a faziam pensar se não estaria mesmo errada.
Não, não estava, não. O mundo é que estava. Obviamente que ela não se encaixava nele. Mulheres fortes costumam ser assim. Ela era uma delas.
Nunca, nunca se rebaixara, nunca permitira que nenhum homem a tratasse de maneira que não fosse digna. Sempre respeitara seu corpo, sua essência sagrada e suas vontades todas.
“Bruxa!”, bradavam as vozes da ignorância. Ela nem sequer as ouvia, sua música interior, aquela com que dançava com suas irmãs ao redor do fogo na floresta a abafava.
“Bruxa maldita!”, eles insistiam. “Tem que morrer!”
E a dança se tornando cada vez mais envolvente, quase um transe, quase uma convulsão, pura catarse! As irmãs todas, ao calor da fogueira, saias multicoloridas esvoaçantes, já que um vento impetuoso insistia em querer apagar sua chama...
Mas a dança, a dança continuava, uma dança linda e insana, a dança da própria vida. Dança essa que só são capazes de dançar aqueles que entenderam o sagrado que é estarmos aqui nesse momento e o prazer que deve ser nossa existência. Que vontade de dançar com elas!
“Queimem!”, dizia uma voz ao fundo, abafada pela alegria e toda gargalhada das bruxas.
“Queimem! São hereges!”
As vozes se avolumando cada vez mais, o fogo aumentando, com a agora contraditória ajuda do vento.
“Queimem!”
As gargalhadas aumentando o volume à mesma proporção da barbárie que estava prestes a acontecer.
Não sentiram dor? Ah, por favor... Elas foram queimadas vivas!
E eu ainda hoje posso sentir um pouco dessa dor, porque diariamente ainda somos queimadas, quando submetidas a todo tipo de julgamento, pelo simples fato de sermos livres!
Nós, as bruxas contemporâneas, somos filhas da liberdade que aquelas mulheres fortes e corajosas implantaram em nossa essência.
E ainda que essa vida seja uma eterna dança ao redor da fogueira, um transe belíssimo, essa catarse de emoções e sentimentos tão intensa, nós não queimaremos mais. Não!
Em honra às nossas ancestrais, continuaremos a dança, a vida, a alegria e o peso que pode ser simplesmente ser mulher, nesses dias odiosos de censura e perseguição.
Vivam as bruxas!
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