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SUB-VERSÃO

Café

Café. Café bem forte, sem açúcar nem adoçante, que era pra sentir o gosto genuíno dele. Café passado pontualmente às seis da manhã, todos os dias. O senhor pode colocar umas gotinhas de adoçante... O médico deixou. O quê? Não estou te ouvindo...

Era assim que ele reagia às tentativas frustradas da cuidadora de “agradá-lo”. Onde é que já se viu, me oferecer veneno pro café? Já não basta o que eu engulo junto com as verduras? Essa moçada de hoje em dia não sabe mesmo apreciar direito as coisas. Onde é que já se viu, adoçar café? Ah... por favor!

Café passado pontualmente às seis da manhã, todos os dias. Todos os dias, todas as horas do dia cuidadosamente preenchidas por uma rotina cuja rigidez faria inveja aos mais sistemáticos.

Café, fisioterapia, almoço, leitura, descanso, jantar, chá. De todos esses compromissos, sem dúvidas, a leitura era o de que mais gostava. Era também quando a cuidadora, e era óbvio que ele notava, ficava de conversinhas ao celular, por mensagens, como os jovens gostam de fazer hoje em dia. E deviam ser mensagens interessantes, visto que às vezes, ela até corava.

Lígia ficava ainda mais linda quando corava. As maçãs de seu rosto, altas, sobressalentes, ainda na flor da idade, quando tomadas pelo rubor eram algo que o encantava. Lígia era sua leitura e poesia prediletas.

Era inevitável lembrar-se dela entre uma leitura e outra, posto que até dos mesmos gostos literários eles compartilhavam. Como evitar que a memória, tão cansada para muitos outros assuntos, fosse assim ainda tão viva e cruel com relação a ela? Lígia não era apenas memória, Lígia era parte de seu ser.

A vida seria tão menos doída e pesada com ela. Certamente, ela riria dos exercícios de fisioterapia, e antes, é claro, teria feito-lhe companhia no café puro.

Quer que eu ligue a TV, seu Wagner?

Pode ligar, minha filha, eu sei que você quer se distrair um pouco desse velho aqui...

Não, imagina.

Ela liga a TV. Ele, mais uma vez, finge não ouvir. Eis uma das vantagens da idade avançada, ganhamos o direito a cometer, sem qualquer sanção, uns pecadinhos inocentes.

O vírus avança. Um menino foi encontrado preso em um barril. Pedras são colocadas sob viadutos a fim de impedir que moradores de rua se estabeleçam ali.

E a vacina, minha filha? Estão falando alguma coisa da vacina?

(Tinha ouvido tudo, todas as manchetes, mas não custava azucrinar um pouco a moça, né? Ou pelo menos, romper o cortante silêncio).

Ainda, não, seu Wagner, mas acho que vão falar, sim.

Café puro. Fisioterapia. Almoço. Leitura. Descanso. Jantar. Chá.

Café puro. Lígia. Fisioterapia. Lígia. Almoço. Lígia. Descanso. Lígia. Jantar. Lígia. Chá. Lígia.

Feito nódoa em tecido branco, ela estava em cada fase de seu dia, todos os dias, desde que se conheceram até o dia em que deixara de estar, fisicamente.

Por que ela antes? Por quê? Por que esse vírus maldito a levou?

Seu Wagner, está na hora de se recolher. Vou arrumar a cama pro senhor.

Ele se recolheu, obediente feito menino. Não sobrou tempo para o chá aquela noite. O sono veio implacável, fechando suas pálpebras derrubadas pelo tempo. Sonhou com Lígia. Recolheu-se.

Amanhã preciso ver que dia vão vacinar a faixa etária do Seu Wagner, dizia a cuidadora, pensando alto. Certeza que ele vai me perguntar de novo.

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