Na semana passada, meu filho começou a escola primária (no Japão, tudo se inicia em abril).
Quem é pai (e mãe, naturalmente) conhece bem a emoção desse momento. E para pais que também são imigrantes, ah, tal emoção é mesmo indescritível. É o meu caso. Há vinte e quatro anos, cheguei ao Japão, cheio de sonhos, como muitos brasileiros no país (a Terra do Sol Nascente, aliás, é o quinto país com o maior número de brasileiros residentes no exterior, li um dia desses), para lutar, para viver, enfim...
Por isso, no dia nove de abril de 2025, ao ver meu pequeno colocar a tradicional mochila (o “randoseru”, como aqui chamam) e o chapeuzinho amarelo (típico da primeira série) para reunir-se aos demais estudantes na caminhada diária rumo à escola, agradeci a Deus por testemunhar esse momento. Claro, como meu Endi ainda é muito pequeno, tenho o cuidado de acompanhar o grupo todas as manhãs. Mas a verdade que o sistema japonês deixa os pais despreocupados em relação a essa caminhada matinal.
A coisa funciona assim. Os maiorzinhos – em ordem “sexta”, “quinta”, “quarta” e “terceira” séries – vão guiando os menorzinhos – “segunda” e “primeira” séries – até a escola. E, chegando lá, ainda guiam os pequeninos até a sala de aula.
Como escrevi, tenho acompanhado o grupo nessa caminhada diâria. E uma das coisas mais bonitas que já presenciei em minha vida foi ver, já no primeiro dia, aquele mar de “chapeuzinhos amarelos” pelas ruas do Japão. E mais interessante ainda foi observar, ao nos aproximarmos da escola, aqueles “afluentes” de chapeuzinhos emergindo de várias ruas: até se reunirem no grande mar (ou rio) que adentra a escola. E tudo isso de um modo extremamente organizado: bem ao gosto japonês.
E, para além dessa beleza visual, ainda há um outro detalhe que merece destaque. Ao longo da caminhada, muitos voluntários (pais e vizinhos) vão saudando e indicando o trajeto aos pequenos. Nós, os pais, aliás, temos também de participar dessa força conjunta pelo menos três vezes ao mês. Ou seja, na caminhada, os pequenos jamais ficam sozinhos. Uma beleza de eficácia, realmente.
Por tudo isso, fico muito feliz que o meu filho seja agora um membro de um sistema educacional tão organizado. Porque não há dúvidas de que o Japão é um país onde educação é prioridade. E isso explica também o porquê de a Terra do Sol Nascente continuar, independentemente das crises mundiais recorrentes, com uma estabilidade social de fazer inveja até a potências como China e Estados Unidos.
Porque a verdade é que essa base educacional japonesa não é consequência de governos passageiros, mas sim de uma cultura que foi construída ao longo de sua história. De modo que não importa qual partido esteja no poder: o valor educação, aqui, sempre será uma prioridade social.
E assim vai o Japão, rumando e remando nesse mar de chapeuzinhos amarelos: da mesma cor do ouro de que sempre deve ser feita a EDUCAÇÃO.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quinhentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2024, seu livro obteve o Primeiro Lugar no Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) da UBE-RJ. Também em 2024, foi o roteirista vencedor do “WriteMovies Script Pitch Contest”, nos Estados Unidos. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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