Eu ainda me lembro da madrugada mais triste da minha vida. Eu era menina e não conseguia dormir. Ele estava morrendo. Agonizando. As perninhas finas balançando ao ritmo do tremor que percorria seu corpinho inteiro. Ele estava morrendo. A impotência diante da morte se apresentou a mim naquela madrugada insone. Eu não podia evitar sua morte, nem ao menos seu sofrimento, e talvez por isso mesmo, também não conseguisse dormir.
Como é que se dorme, quando um amigo está morrendo? Fechar os olhos pra morte de quem se ama é tarefa impossível. Então, eu permaneci transtornada, ao lado de sua gaiola.
Dinho era meu passarinho, foi picado por uma daquelas abelhas que costumamos chamar de maria rita, e vou grafar o nome dela assim mesmo, com letras minúsculas, porque quero delegar-lhe o desprezo dos assassinos.
Você já foi picado por uma dessas? É uma dor lancinante pra uma pessoa, agora imagine essa dor maximizada diante do tamanho ínfimo do corpinho de um canarinho...
Lembro-me de ter chorado tanto, pranteando seu sofrimento e sua redenção final, que foi com os olhos inchados que fui para a escola na manhã seguinte. A gente devia ter direito ao luto pelo animalzinho de estimação, eu pensava, enquanto pensava também que ia chorar de novo se alguém me perguntasse, e eu tivesse de explicar o que acontecera ao Dinho.
O arrepio dolorido que percorreu por horas seu minúsculo corpinho, enquanto o veneno feroz da assassina se espalhava por ele, era o mesmo que percorria minha alma. Naquela madrugada, a morte se apresentou para mim sob sua face mais cruel. Ela, essa apressada visitante do tempo, levou meu passarinho pro céu dos passarinhos, eu sei, mas de uma forma tão dolorida, que ainda hoje a dor misturada à tristeza me arrepiam através da lembrança.
E é por isso que eu chorei junto com aquele menino que teve seu melhor amigo morto com tiro de chumbinho por aquele comerciante.
Quando vi a notícia, quando ouvi a fala entrecortada pelo choro soluçado do garoto, eu me vi diante do horror novamente.
Todo dia, todo dia, o horror tem se apresentado a mim, e sob várias faces nesse país. Dessa vez, através da maldade de um ser humano, homem, adulto, que, covardemente matou um cãozinho, melhor amigo de uma criança.
Eu não sei o que anda acontecendo com as pessoas, eu não sei. É tanto ódio, tanta gana de morte, tanta violência... Onde é que isso tudo estava escondido até então? Ou eu é que não enxergava?
O cãozinho não era bem-vindo ali no seu comércio? Foi esse o motivo para essa atrocidade?
O Brasil tem se tornado um lugar inóspito não apenas para cães, mas para a gente que sonha, que ainda tem alguma sensibilidade, que se compadece do outro, por reconhecê-lo seu irmão. O Brasil tem tentado se desfazer de nós, que o amamos e amamos seu povo. O Brasil tornou-se um reduto de violência e ódio.
E não se engane, as balas que acertaram aquele cãozinho são as que acertam as crianças negras nas comunidades, são as mesmas que atingem em cheio o coração daquele que ama esse país e tenta, a todo custo, ainda esperançar.
O Brasil tem tentado nos matar, a todos nós, que choramos sua morte.
Belinha e Dinho estão bem agora, isso me consola. Ela, no colo de Francisco, acarinhada pelo santo que sabia reconhecê-los irmãos. Ele, pousado em seu ombro. Ambos finalmente livres, dos homens e de sua maldade.
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