Foi aquele mais uma vez um culto particular, em que minha alma encontrou-se afinada à do Senhor. Ainda que não pudesse dobrar os joelhos, senti todo meu ser e consciência dobrando-se diante da majestade daquele que é Amor. Que eu só obedeço mesmo em amor. É o amor que me guia e conduz e à sua voz quase nunca ouso fingir indiferença ou procrastinação. Porque a voz do Amor é sempre urgente e só requer de nós aquilo que há tempos já lhe pertence. “Ele não tira nada, Ele dá tudo”.
Havia burburinho e conversas esparsas, havia Cristo. Sua presença era facilmente notada. Não me foi difícil sentir seu perfume, tamanha era nossa proximidade. E que lindo sorriso Ele deu, quando uma garotinha, indignada pela crueldade exposta no painel que coloria as paredes do lugar, inquiriu a mãe: - Mãe, furaram a mão dele? – Sim. – Tadinho, né? Mas essas pessoas que fizeram isso já morreram, né? – Já, sim, filha. – Ah, ainda bem...
O alívio daquela menina ao saber que os algozes de Cristo já morreram, talvez seja o mesmo que sinto em minha alma quando, na sua presença desfruto daquela paz, que só Ele sabe oferecer. Paz que excede todo entendimento, que vem dEle, se motiva nEle, e independe das circunstâncias adversas e externas. O Amor habita em nós e, sendo assim, não há em nós uma fresta que seja por onde o temor possa penetrar e alojar-se. Somos Luz e as trevas já se foram naquela tarde de sexta-feira.
Mas confesso que a inocente pergunta daquela menina ainda me atormenta: “As pessoas que fizeram isso com Ele já morreram?”
E minha consciência a ela responde, talvez movida pelo Espírito: Não. Eu o vejo sendo maltratado diariamente. Eu o vejo nos olhos assustados da criança violentada, de quem o algoz retira a inocência e parte da vida; eu o vejo nos mendigos, expostos à fome e ao tempo, nos refugiados de países em conflitos constantes, na gente que perambula pelo mundo sem experimentar do amor, e, portanto, sem encontrar a razão da existência. Por que se existimos é para Ele, nos movemos na direção dEle, somos com Ele, o triunfo do Amor.
E como o temos maltratado... E como Ele ainda assim, nos ama! A Graça de Aba me maravilha diariamente, seu amor me comove e, mais que isso, me constrange a amar. E o quanto ainda sou imperfeita nesse exercício... Ele o sabe.
A borboleta que surgiu, brincando no ar, passeando sua graça em meio aos fiéis, talvez também seja a mensageira de um recado: estamos em transformação. A metanoia do Verbo que se fez Carne, da Carne que se fez Sangue, do Sangue que se fez Imortalidade. A metamorfose do Amor deve encontrar em nós casulos muito saudáveis, dos quais sairão borboletas das cores mais diversas, que colorirão o mundo que anda tão cinza.
Cristo foi quem me apontou ela, maravilhando meus olhos com a beleza de sua criação. Cristo foi quem enxugou minhas lágrimas, enquanto, entre risos, amorosamente dizia: “Menina, pare de chorar, eu sempre lhe disse que tem olhos bonitos, mas você insiste nessa maquiagem. Agora, tá tudo borrado!”
E rimos. E como é reconfortante rirmos juntos! Rio da minha pequenez, enquanto mirando nos doces olhos dEle, reafirmo minha confiança cega em seu amor.
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