“Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido”.
(João e Maria – Chico Buarque de Holanda)
“Professora, eu vou andar de mãos dadas com você lá no passeio, viu?”, disse Ana, num áudio enviado logo pela manhã.
Ela não pediu, perceberam? Não foi uma pergunta, foi uma afirmação. Ela estava nitidamente me comunicando o que faria mais tarde.
O passeio citado só aconteceria no período da tarde, mas eu compreendo sua ansiedade, afinal, faz um bom tempo que não promovemos nenhum tipo de excursão em nossa escola. Pois é, até mesmo isso a pandemia nos roubou.
Adoro esses passeios, pois acabam se tornando uma extensão da sala de aula e oferecem aos alunos vivências tão significativas, que eles as carregam por toda a vida.
Nessa ocasião, iríamos à Feira das Profissões, promovida pela Universidade São Francisco. Um passeio riquíssimo! Foi emocionante ver o entusiasmo refletido nos olhinhos brilhantes e vivos deles, como os de quem está prestes a descobrir um novo mundo, repleto de possibilidades. E não é isso mesmo que a educação deve proporcionar?
Além disso, a educação deve nos tornar mais humanos.
Em meu discurso durante a formatura de meus alunos ano passado, absolutamente improvisado, e por isso mesmo, genuíno, fiz questão de dizer que muito mais do que pessoas com cargos, tido como “importantes” pela sociedade, ou que paguem altos salários, eu queria vê-los tornarem-se pessoas felizes, pessoas realizadas com a profissão que escolherem, assim como sou na minha. E é sempre isso o que mais almejo, por isso, a fala citada lá no início desse texto, me comove e me faz repensar meu papel enquanto educadora e ser humano, porque ambas as características são indissolúveis.
O gesto de andar de mãos dadas sempre significou para mim o maior ato de confiança e intimidade entre dois seres humanos. Segurar a mão e não soltar. É como dizer, eu vou com você, porque confio em seus passos, porque sinto orgulho em caminhar ao seu lado.
Foi assim que me vi naquela tarde, o tempo todo de mãos dadas com aquela menina tão especial, que cumpriu o que prometera.
Na vida, tantas e tantas vezes, as pessoas, não sei se por medo, covardia ou simplesmente desinteresse largam de nossas mãos no meio do caminho... Mas ela, não. E ainda acrescento que à ela se juntou uma coleguinha, a criatura mais doce que já conheci. Sim, a outra mão ficou para ela. E caminhamos o tempo todo assim.
Cheguei a pensar que ambas tomaram essa decisão por medo de perderem-se do grupo, afinal, eram muitas escolas na visita. Mas não, acho mesmo que foi Ele, usando-as para que eu não me perdesse de mim mesma.
De mãos dadas, sem jamais soltar. Assim, eu não me perco. Assim, você não se perde. Assim, caminhamos exercitando nossa humanidade e a absoluta e inegável necessidade que temos do outro, de conviver, de trabalhar nossas diferenças, fazendo delas um maravilhoso quebra-cabeça, multicolorido, intenso, vivo!
E assim, vamos construindo relações e aprendizado significativo, dia após dia, com a clareza de quem se reconhece aprendiz, com a curiosidade do olhar da criança. Mas só o fazemos, por que vamos de mãos dadas!
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