A cada 15 de outubro, rememoramos a data como o “Dia do Professor”. Seu reconhecimento se deu em menção ao decreto do então Imperador do Brasil, Dom Pedro I, assinado em 1827, que criava o ensino básico em todas as cidades e vilas do país. Anos mais tarde, em 1947, o educador paulista Salomão Becker idealizou essa comemoração, que foi abraçada pela pioneira negra da política e da educação, Antonieta de Barros, autora da lei que instituiu a honraria.
E agora, mais recentemente, o governo federal, em lembrança a esses profissionais, reconheceu a “Carteira Nacional Docente do Brasil”. Apresentada como um documento oficial de identificação profissional, ela é válida em todo território nacional e destina-se aos professores tanto da rede pública quanto privada, de todos os níveis de ensino, permitindo acesso a benefícios exclusivos do Programa “Mais Professores”, como meia-entrada em eventos culturais, descontos em hotéis, serviços e lojas parceiras, além de condições diferenciadas em cartões de crédito e materiais de trabalho.
No combo das ações comemorativas ao Dia do Professor, o Ministério da Educação (MEC) também anunciou a premiação de 100 mil professores da rede pública de todo o país, vinculados às escolas que tiveram o melhor desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), importante indicador que mede a qualidade do ensino no país.
A plataforma “Mais Professores”, lançada em janeiro deste ano pelo MEC, é voltada à valorização e qualificação dos professores, reconhecendo o “papel central dos docentes no processo de aprendizagem dos estudantes e no sucesso das políticas educacionais. A iniciativa visa fortalecer a formação docente, incentivar o ingresso de professores no ensino público e valorizar os profissionais do magistério, proporcionando-lhes recursos e oportunidades de desenvolvimento profissional contínuo”, como é apresentado pelo próprio governo federal na página oficial do programa.
Agrados esses que seriam, eventualmente, muito “bem-vindos” se acaso a realidade vivida por professoras e professores Brasil afora tivesse muitos louros a comemorar.
Mas não é essa a realidade que temos!
A importância social da profissão não é nem de perto reconhecida e nem valorizada no conjunto do país, seja pelo Estado ou mesmo pela própria sociedade. Na prática, parece prevalecer uma espécie de “mito da vocação”, em que supostamente a presença incandescente do amor bastaria para guiar o exercício da docência. Ora, ainda que o amor possa se configurar como algo fundamental no exercício da profissão, isso não se resume a prática docente; deveria – na mesma proporção e medida – ser um indicador de qualquer outra atividade laborativa: um parlamentar, por exemplo, também deveria guiar-se pelo amor!
A dureza do trabalho docente no país, não à toa, imprime uma realidade muito cruel para quem vive dele: os baixos salários, as jornadas exaustivas, a ausência de infraestrutura no exercício do trabalho, o acúmulo de tarefas, a vivência de assédios, pressão e violência – do Estado e por vezes dos próprios estudantes, seus pais e familiares – retroalimentam cotidianamente essa árdua realidade, num horizonte contínuo de descaso pela profissão.
Não por acaso, essa categoria profissional é uma das mais adoecidas no país: seja de doenças físicas oriundas do próprio exercício profissional, como distúrbio da voz ou doenças musculares, seja agravos no campo da saúde mental, como ansiedade, depressão, síndrome de Burnout, entre tantas outras, que inflam as estatísticas anuais de uma realidade em colapso.
O desprezo e a pena pela profissão parecem ser reproduzidos no conjunto da sociedade que se compadece da saga de ser professor neste país e do desejo que nenhum familiar próximo “pague seus pecados” no exercício desse ofício.
E para camuflar essa dura realidade, o circo montado condecora os profissionais com uma carteirinha. Bem, já sabemos onde é possível solicitá-la. Então, agora onde se solicitam a valorização e o respeito profissional?

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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