Cássia Regina Barbieri, de 33 anos, psicóloga perinatal e parental, contou a respeito de sua trajetória, falou sobre os desafios do atual período, deu dicas para manter o equilíbrio e muito mais
Nessa quinta-feira, 27, foi comemorado o Dia do Psicólogo. A data celebra o trabalho dos profissionais da Psicologia, que, sob diferentes especialidades e metodologias, ajudam as pessoas a terem mais qualidade de vida e equilíbrio emocional.
No Brasil, a data é comemorada em 27 de agosto porque, nesse dia, em 1962, o presidente João Goulart sancionou a Lei nº 4.119, que dispõe sobre a profissão de psicólogo. No entanto, o decreto com a regulamentação da lei só foi publicado dois anos mais tarde, em 21 de janeiro de 1964. A orientação e fiscalização do exercício da atividade está a cargo do Conselho Federal e dos Conselhos Regionais de Psicologia.
O psicólogo é o profissional da área da saúde responsável por estudar e orientar o comportamento humano, lidando com sentimentos, traumas e crises. Em um mundo cada vez mais globalizado, em que as rotinas são cada vez mais apertadas, inúmeras pessoas sofrem com problemas como estresse, ansiedade, depressão, dentre outros males e distúrbios.
A pandemia do coronavírus, na visão de muitos profissionais, não necessariamente desencadeou, mas acentuou diversas questões emocionais. Por isso, o ofício do psicólogo se tornou ainda mais relevante nesse período e esse serviço é cada vez mais procurado pelas pessoas.
Para compartilhar sua rotina profissional, sua visão acerca do atual cenário, bem como a importância da saúde mental e dicas para manter a mente sã, o Jornal Em Dia conversou com a bragantina Cássia Regina Barbieri (CRP 06/99712), de 33 anos, psicóloga perinatal e parental, formada em Psicologia há dez anos pela Universidade São Francisco (USF) de Itatiba-SP. Logo após finalizar a graduação, Cássia se especializou em Saúde Mental e Psicopedagogia pela USF de Bragança Paulista, e atualmente, está aprofundando seus conhecimentos nas áreas perinatal e parental. Confira:
Jornal Em Dia: Conte-nos sobre o seu trabalho e área de atuação.
Cássia: Minha carreira profissional se iniciou em 2011, quando tive a oportunidade de atuar em um Centro de Referência de Assistência Social (Cras), que estava sendo implantado no município de Pinhalzinho-SP. Paralelamente, tive a oportunidade de atuar na Comunidade Promocional Arco-Íris na mesma cidade.
Em 2013, ao ser convocada no Concurso Público da Prefeitura de Extrema- MG, iniciei minha jornada no Cras da cidade, no qual estou até hoje, atuando junto às colegas assistentes sociais no acompanhamento familiar com as mais variadas situações de vulnerabilidade social.
No ano passado, iniciei alguns projetos solo como psicóloga perinatal e parental e, hoje, faço parte da equipe de voluntários de um projeto social de Bragança Paulista, o Projeto Mamães - Família, um bem precioso. Recentemente, estou supervisionando profissionais que estão atuando na Assistência Social.
Minha missão é “cuidar de quem cuida”, fortalecendo vínculos familiares e comunitários, por meio de atendimentos e realização de grupos com casais que estão planejando engravidar, gestantes, mães, pais, avós e suas redes de apoio.
Jornal Em Dia: O que mudou na sua rotina de atendimentos com a pandemia?
Cássia: Os atendimentos presenciais tiveram que ser temporariamente suspensos, principalmente os atendimentos em grupo, assim como as visitas domiciliares. Atualmente, somente os atendimentos de urgência estão sendo realizados presencialmente. Porém, vale lembrar que estamos enfrentando dificuldades em tornar os serviços de acompanhamento efetivos neste período, quando se leva em conta que muitas famílias de baixa renda não possuem sequer um aparelho de celular ou uma internet que comporte uma chamada de vídeo, por exemplo. Além disso, muitas famílias atendidas residem na zona rural, em locais mais afastados, que não têm acesso à internet.
Jornal Em Dia: Nunca se falou tanto sobre saúde quanto agora, em que as pessoas estão passando a maior parte do tempo em casa. Qual a importância de manter a saúde mental nesse contexto?
Cássia: Diante de todas as mudanças e transformações que estamos vivendo, cuidar da saúde mental virou algo “básico e essencial” para nossa sobrevivência dentro e fora de casa. Além de prevenir adoecimentos psicológicos (estresse, ansiedade, depressão, entre outros) que, exaustivamente, nós, profissionais da saúde alertamos, cuidar da saúde mental também previne o desequilíbrio nas relações familiares, sociais e no trabalho. Quando as pessoas praticam o autoconhecimento, têm consciência do seu limite emocional e qual efeito cada situação tem sobre suas emoções e sentimentos, elas conseguem se relacionar melhor com o mundo.
Jornal Em Dia: Como tem sido o acompanhamento de seus pacientes nesse período? Acredita que os pacientes que enfrentam questões psicológicas têm sentido mais os efeitos da pandemia?
Cássia: O acompanhamento das famílias tem sido feito, na maioria das vezes, por meio de parcerias com a rede de serviços públicos. Diante da demanda de cada família acompanhada, solicitamos parceria com os serviços de saúde, principalmente das Unidades de Estratégia de Saúde da Família e o Centro de Atenção Psicossocial (Caps). Também solicitamos parceria com os serviços da Educação e, em alguns casos, também é necessário acionar o Conselho Tutelar, Ministério Público e/ou Poder Judiciário.
Neste momento, percebemos que, mais do que nunca, a procura pelos serviços da Assistência Social teve um aumento significativo. Acompanhadas das vulnerabilidades econômicas, as fragilidades nas relações familiares têm nos preocupado muito. Houve um aumento muito grande nos casos de violência doméstica e, infelizmente, de abuso sexual infantil. Além disso, nos preocupamos principalmente com o público de gestantes, por se tratar de um período da vida mulher que pode ser encarado como uma crise, devido a muitas transformações sofridas durante a gestação.
Nos preocupamos também com a saúde emocional das crianças e adolescentes que estão com seus ambientes de socialização limitados, e os únicos ambientes de convivência não estão sendo harmoniosos e acolhedores na maioria das famílias acompanhadas.
Jornal Em Dia: De que forma o acompanhamento psicológico pode ajudar a combater esses efeitos?
Cássia: Diante de todas essas preocupações, o acompanhamento familiar neste momento é de extrema importância para que todo o sistema familiar possa encontrar novamente um equilíbrio e enxergar novas potencialidades em meio a tantas incertezas e medos.
Jornal Em Dia: Quais os principais problemas que você tem observado nesse período que afetam a saúde mental das pessoas?
Cássia: Os principais problemas que afetam a saúde mental neste período no acompanhamento das famílias são: uma rede de apoio escassa ou nula impedindo o revezamento dos cuidadores de crianças, adolescentes e/ou idosos. Muitos pais estão sobrecarregados com as múltiplas tarefas assumidas neste período.
Também tem se observado que muitas pessoas que estão adoecendo emocionalmente já tinham uma pré-disposição. Infelizmente, o Brasil é o país mais ansioso do mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS.) Se somarmos aos efeitos do isolamento, infelizmente, não teremos um bom prognóstico da situação.
Além disso, podemos citar os problemas de ordem econômica e os diversos tipos de violência (física, psicológica, sexual, patrimonial, etc).
Jornal Em Dia: Como as pessoas que estão em home office podem manter a saúde mental em casa? E as que têm de sair para trabalhar fora neste momento?
Cássia: É importante que as pessoas que estão em home office tenham estabelecido uma rotina na qual consigam conciliar as necessidades do trabalho, com as de sua vida familiar e social. Neste caso, é necessário que se tenha um espaço próprio para o trabalho. São indicadas pausas para atividades relaxantes e prazerosas, evitando comer, por exemplo, na frente do computador.
Já as pessoas que necessitam sair de casa para trabalhar devem, com certeza, continuar, com todos os cuidados necessários. Além de manter uma alimentação saudável, procurar ter um sono adequado, também praticar atividades físicas e procurar manter contato com amigos e familiares mesmo que a distância, para que seu sistema imunológico esteja sempre fortalecido.
Jornal Em Dia: Como você tem visto, do ponto de vista psicológico, esse momento de medos e incertezas?
Cássia: Do ponto de vista psicológico, esse momento de medos e incertezas já está causando mudanças irreversíveis no psiquismo humano. Gosto de comparar este momento com o momento vivido pelas recém-mamães: o puerpério (período de pós-parto imediato). São muitos dias em casa com um bebê que acabou de nascer que você ainda não conhece com muitas demandas para serem atendidas. Neste momento, vivemos muitos lutos: perda do papel social de filha, mudanças na vida conjugal, familiar, social e profissional. Tentamos nos adaptar à nova rotina e também iniciamos a construção do vínculo com o recém-nascido. O período de quarentena que estamos vivendo é muito parecido com a das mães e seus bebês. Nunca mais seremos os mesmos, mas nesta caminhada podemos aproveitar para nos conhecermos melhor e nos reinventarmos.
Jornal Em Dia: Sobre a profissão de psicólogo: você considera que esse ofício se tornou ainda mais importante ou notável diante da pandemia? Por quê?
Cássia: Acredito que diante da pandemia, os serviços de Psicologia puderam quebrar muitos preconceitos (psicólogo é “coisa de louco”, depressão é “frescura”). Além disso, se reinventaram em suas práticas (muitos psicólogos puderem experimentar outras formas de atendimento) e estão apresentando a importância do atendimento humanizado.
Jornal Em Dia: De forma geral, acredita que os profissionais da saúde têm sido mais valorizados por estarem na linha de frente de combate à pandemia?
Cássia: Em meio a tanto caos, não podemos esquecer de reconhecer e enaltecer o trabalho das pessoas que estão na linha de frente nesta pandemia, ajudando a população com as todas as forças, colocando a própria saúde em risco para salvar outras vidas.
Acredito que muitas profissões ganharam visibilidade e valorização neste momento, porém, ainda temos muito o que evoluir, principalmente nos quesitos de condições de trabalho e salários.
Jornal Em Dia: Deixe um recado para que as pessoas mantenham a preocupação com hábitos saudáveis, sobretudo, com a saúde mental, nesse período tão desafiador.
Cássia: Mantenha a conexão com familiares e amigos! Neste período de isolamento, é fundamental exercitar nossa socialização mesmo que de forma virtual. Alimentação, sono e prática de exercícios físicos auxiliam muito no fortalecimento do sistema imuno-lógico. Evite fazer muitos planos a longo prazo. Viva um dia de cada vez! E se sentir necessidade, peça ajuda profissional! Neste período, estamos com muitos canais de acesso aos plantões psicológicos. Um dos mais importantes de prevenção, principalmente, do suicídio é o Centro de Valorização da Vida (CVV) (https://www.cvv.org.br/).
Para mais dicas e para saber mais sobre o trabalho da profissional, siga sua página no Instagram: https://www.instagram.com/cassiabarbieripsi/.
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