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SUB-VERSÃO

Dieguito

Quando criança, diferentemente das meninas da minha idade, pedi um shorts azul de Natal. Não um shorts qualquer, daqueles que as menininhas usam, mas um shorts solto, largo, um shorts de jogador de futebol. Azul, porque era essa a cor do shorts do uniforme número um da seleção brasileira, e eu era uma garotinha gordinha apaixonada por futebol.

Tanto que um dia, movida por coragem e paixão insanas, ousei tentar descer as escadas de casa com a bola entre as pernas. Imagine só... O resultado foi o óbvio, rolei as escadas ainda sem piso, no cimento, me escalabrando toda.

Eu gostava de jogar bola, e de alguma forma, também já sabia das dores da vida.

Desde pequena também é que nutro apreço por pessoas ditas controversas, donas de personalidades fortes, figuras fora da curva, gente de verdade.

Por isso, me entristeceu tanto a notícia da morte de Diego. Um gênio nos gramados e, sobretudo, uma pessoa absurdamente humana. Um apaixonado, assim como eu.

Apaixonado pelo futebol e pelo seu povo e por todo o povo da América Latina. Um homem sem medo de ser quem era, sem medo de posicionar-se. Isso para mim é, ao lado de sua maestria com a bola, sua característica mais marcante: sua autenticidade, dentro e fora dos campos.

Nunca tive dúvidas ao ser perguntada sobre quem era melhor: Pelé ou Maradona? Óbvio que era o “hermano” argentino! E nem faz-se necessário listar aqui os motivos, mas adianto-lhes que eles passam por questões de caráter também. Não, não sei separar as coisas.

A menininha gordinha que amava o futebol ainda existe em mim, e por isso, minha tristeza. A mulher idealista que ainda sou chora a morte de um ícone do futebol e da vida.

Queria mesmo que houvesse prorrogação dessa vez, que o jogo não acabasse assim, que o juiz não fosse assim tão implacável com o tempo e nos permitisse assistir a mais algumas de suas jogadas espetaculares.

Ouvi dizer que há gramados incrivelmente bonitos lá no lugar para onde Dieguito foi. Sendo assim, estou certa de que deve estar agora dando um espetáculo, correndo livre, feliz, como deveria ter sido, como foi de alguma forma no tempo regular que lhe foi concedido aqui conosco.

E porque lendas nunca morrem, recuso-me a pensar na morte de alguém como ele. Prefiro seguir sonhando, feito a menina que era, na minha inocência de descer escadas com a bola entre as pernas. Prefiro seguir, feito a mulher que me tornei, sonhando um mundo melhor e mais justo, como ele fez!

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