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Do flagelo à esperança: por um projeto nacional civilizatório

Vivemos tempos em que a distopia não é apenas uma metáfora literária, mas uma realidade que se insinua em nossas ruas, em nossas casas e em nossas escolas. O Brasil tem testemunhado episódios de violência que nos ferem profundamente: o cãozinho espancado por um jovem inconsequente, sem norte ético e sem a presença orientadora da família; o adolescente de 16 anos que perdeu a vida após ser brutalmente agredido por outro jovem de apenas 19. Cada uma dessas tragédias é um espelho que reflete a fragilidade de nossa sociedade.

Como educador, vejo que a raiz desses atos não está apenas na impulsividade juvenil, mas na ausência de limites, na falta de diálogo e na erosão dos valores que deveriam ser transmitidos no seio familiar. Famílias desgastadas, muitas vezes desorientadas, deixam de oferecer o alicerce emocional e moral que prepara os jovens para compreender causas e consequências de seus atos. O resultado é uma juventude que caminha sem bússola, perdida em meio a um mundo que exige responsabilidade, mas não ensina a cultivá-la.

Mas é preciso ir além: não se trata de um texto moralista, pois o moralismo excessivo é o refúgio do hipócrita. O problema maior é que nossa sociedade não foi estruturada sobre bases civilizatórias sólidas. O flagelo da escravidão, que perdurou por quase quatro séculos, deixou marcas profundas que ainda colhemos. Estabelecemos estamentos e castas, como no passado das capitanias hereditárias e dos latifúndios, no qual o dono da terra tinha poder de vida e morte sobre corpos negros arrancados à força da África. Essa lógica de privilégios e baronatos reverbera até hoje, sustentada por um fisiologismo que naturaliza o poder dos ricos e perpetua a indiferença diante da barbárie.

A sociedade, desgastada pela desigualdade e pela indiferença, aceita inconscientemente a cizânia que alimenta políticos radicais e reacionários. Eles vivem da divisão, pois o caos social lhes é salutar. Construir uma sociedade verdadeiramente civilizatória, antirracista e inclusiva – que aceite diferenças de gênero, de afetividade, de cor e de pensamento – será uma tarefa árdua para educadores, formadores de opinião e governos comprometidos com um projeto nacional.

Não bastam políticas compensatórias que apenas mitigam a miséria. É preciso cortar privilégios, rever um judiciário que protege estamentos, traçar uma política de Estado multidisciplinar que retire milhões da indigência, que universalize o saneamento básico, que zere o analfabetismo e o analfabetismo funcional. É necessário fomentar uma escola emancipadora, que atraia o jovem e o faça compreender que estudar não é perda de tempo, que o trabalho é dignidade e que a união da classe trabalhadora é força transformadora.

Um verdadeiro projeto nacional de desenvolvimento não pode se reduzir à administração de pautas fragmentadas, nem se sustentar no prostíbulo rentista que devora o país. É preciso politizar, mostrar ao povo que o caminho exige trabalho, compromisso e sacrifício coletivo. Assim como outras nações atravessaram suas searas históricas, também nós precisamos romper com os grilhões que mantiveram o povo negro por quase 400 anos e a classe trabalhadora em estado de anátema por mais de um século.

O sublime aqui não está em negar a dor, mas em reconhecer que, mesmo diante da distopia, há espaço para reconstrução. Que possamos, juntos, reerguer os pilares da humanidade, para que nossos jovens não sejam apenas sobreviventes de uma sociedade desgastada, mas protagonistas de um futuro mais justo, emancipador e compassivo.

Paulo Bressane é historiador, pedagogo e mestrando em Políticas Públicas em Educação.

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