O crucificado
A cruz de Jesus sempre permanecerá um escândalo e uma tolice para discípulos exigentes que buscam um salvador triunfante e um evangelho da prosperidade. O número deles é legião. São inimigos da cruz de Cristo. Jesus não teria nenhum outro nome pelo qual pudesse ser chamado não fosse o nome de “Crucificado”. (...). Seu ministério era um fracasso aparente; sua vida não parecia ter feito nenhuma diferença; era um Deus assassinado, ineficaz, perdedor. Mas nessa fraqueza e vulnerabilidade o mundo viria a conhecer o amor do Aba, daquele que era Compassivo.
Brennan Manning
É sexta-feira enquanto escrevo esse texto. Devia haver silêncio, reverência, temor... Lembro-me de quando era pequena e assistia no noticiário na TV reportagens sobre a Semana Santa, com todo seu misticismo em encenações em vias públicas, me lembro de ser tomada por um sentimento horrendo de medo ao ver aquelas procissões e suas velas e seus cantos chorosos e depois a imagem do Cristo ator, corpo e alma ensanguentados, e eu pensava: Ele tem que conseguir fugir daqueles homens encapuzados, tem...
Era como um filme de suspense e terror, eu torcia por Cristo, ao mesmo tempo em que sentia medo dele, medo mesmo, acho que todo aquele sangue misturado à escuridão da noite me atormentavam. Houve noites em que demorei a dormir, aquela imagem daquele homem que eu não conhecia muito bem ia e vinha em minha mente, e eu sentia medo...
Hoje, passados alguns anos, a Sexta-feira Santa tem um significado um tanto quanto diferente para mim. Hoje, eu conheço aquele homem ensanguentado.
Ele é a personificação do amor e não o temo. Ele é a razão de estar viva e o propósito de todas as coisas.
Naquela sexta-feira tenebrosa, Ele cumpriu sua missão. E eu tento imaginar com que horror é que esse cumprimento se deu. Como devia estar o coração do Eterno, entregue à sina de ser Amor até o final. O Todo-Poderoso encarnado deixa-se dilacerar por mãos pecadoras. Ele anseia isso, seu coração está tão desejoso de ter-nos de volta, que Ele suporta a própria morte e a supera por amor a nós. É um Deus apaixonado, entregue à insanidade de um amor capaz de vencer a morte.
Hoje, um pouco mais madura, imagino também Maria. A mulher a quem o Altíssimo escolhera para carregar no ventre o salvador, assistia agora à atrocidade que culminou em sua morte. Como devia estar o coração daquela mãe? Confesso que não consigo imaginar a dor que se instaurou na alma de Maria... Aquele a quem ela havia carregado no ventre, embalado, alimentado em seu seio, orientado, ensinado, e de quem também recebera ensinos vindos diretamente do Pai, agora estava ali, sendo macerado...
Santa mulher, santa sina, Santo Deus feito carne por amor a nós.
E o que dizer da espera de três dias... até sua volta. E ele voltou mesmo. Que alegria afirmar isso, enquanto sinto sua presença ao meu lado. Sim, porque Ele não voltou apenas e alegoricamente depois daqueles longos três dias e só. Não, Ele voltou para estar conosco para sempre!
Sua presença é viva e cheia de graça e cuidado. Posso senti-lo inúmeras vezes, ouvi-lo, aconselhando-me, e com que doçura é que sua voz se dirige a mim, enquanto me chama de Aninha.
O Senhor vive!!! E eu não temo mais... não há motivos para qualquer medo, Ele vive! Se nem mesmo a morte foi capaz de separar-nos do amor de Aba, o que o será? Minha alma descansa na certeza de ser amada e para sempre... então, o que temer?
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