Nas noites em que não tenho aulas, costumo escutar, pela internet, a rádio brasileira – um modo de manter-me informado, além de, claro, matar a saudade de minha pátria e de meu idioma. E, desde 2011, o meu programa favorito é o “Show do Antônio Carlos” (que era até bem pouco tempo na Rádio Globo, e hoje está na Tupi). O programa (às seis da manhã, no horário do Brasil) cativa-me especialmente pelo carisma de seus integrantes: além de Antônio Carlos, há a “fofoqueira” Juju; o especialista em futebol, Gilson Ricardo; a protetora dos animais, Karla de Lucas; entre outras figuras fascinantes. Para terem uma ideia do sucesso do referido programa em nossa casa, até o meu filhinho, de um ano de idade, começa a dançar, entusiasmado, quando ouve a música de abertura do programa (“Acorda, Brasil, pra escutar...”). O que eu acho o máximo: principalmente porque é uma forma de o pequeno começar a familiarizar-se com a língua portuguesa.
Nas últimas semanas, porém, estou notando Antônio Carlos e sua equipe bem mais tristes: o que não poderia ser diferente, considerando-se o aumento assustador dos casos de Covid-19 em nosso já tão castigado Brasil. Ainda assim, como um grande comunicador que é, o radialista tentar passar uma mensagem de otimismo: o que é extremamente necessário nestes tempos obscuros, vale ressaltar. E, nesse novo contexto, uma de suas frases que mais me chamou atenção recentemente foi: “E tudo voltará a ser como antes...”.
Gostaria, do fundo do coração, que essa frase se transformasse o mais rápido possível em realidade: que o pesadelo do vírus acabasse e que o cotidiano que conhecíamos (o trabalho, a escola, as reuniões com os amigos e familiares) fosse logo restaurado. Mas, infelizmente, creio que jamais voltaremos a ser os mesmos. Máscaras como parte do vestuário; distanciamentos sociais; isolamentos – tudo isso, creio, ainda vai demorar a findar. E por um motivo simples: porque esse golpe foi muito profundo; deixando-nos o constante temor de que a maldita pandemia possa voltar, em novas e sucessivas ondas de contaminação, toda vez que nos descuidarmos. Estou exagerando? Sendo demasiadamente negativo? Espero, francamente, que sim. Pois, como pai, torço para que meu filho cresça, de fato, em um mundo melhor e livre de toda dor. Sim, porque a pandemia só nos trouxe isto: uma imensa dor. Por outro lado, há quem ache que o coronavírus não é tão ruim assim, e que veio até mesmo para trazer algo de positivo para o mundo (o meio ambiente mais limpo, e as pessoas menos materialistas, por exemplo). Eu, porém, não consigo concordar com tal visão: pois penso que, no balanço geral, não pode restar nada de bom quando a morte é o preço pago.
Não, caros leitores. Não há nada de positivo nessa pandemia. E tampouco tudo voltará a ser como antes. Ainda que, sim, acredito piamente que a humanidade sairá vencedora na batalha para adaptar-se a essa “nova normalidade”.
Afinal de contas, não é de hoje que a humanidade sobrevive a situações adversas; continuando – bem ou mal – a escrever o seu destino. Pois não há pandemia que possa tirar do ser humano essa maravilhosa capacidade de reinventar-se e resistir a cada dia.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases). Em maio de 2020, foi um dos escritores premiados no Concurso “Crônicas de Quarentena”, do Clube de Autores.
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