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SUB-VERSÃO

Eles vieram!

Eles estão entre nós. Mais uma vez, com sua pontualidade certeira, eles vieram. A pandemia não foi suficiente para detê-los.

   

Será que são indiferentes a ela? Não a percebem? Não a sentem? Não estão vendo, com seus olhos multicoloridos, os sorrisos agora escondidos detrás das máscaras? Sequer notaram qualquer mudança no dia a dia das pessoas, que vez por outra, e só as mais sensíveis mesmo, interrompiam seu itinerário para admirar-lhes a beleza gratuita?

Não sei... O que sei é que eles não falham nunca. E porque não falham, é setembro de um ano absurdamente atípico e estranho, e mesmo assim, não sei por que força ou motivação misteriosa, eles souberam reconhecer que já era chegada a hora de vir e nos presentear, a nós, humanos tão horrendamente indiferentes à sua beleza, com o espetáculo de suas flores.

Sim, os ipês chegaram. Nada... De fato, sempre estiveram ali, aguardando silenciosos e pacientes a hora de florir. E porque eles mais uma vez floriram, eu sinto alguma singela alegria, daquelas que só se sente em raros e preciosos momentos, como quando se ganha um presente inesperado quando criança, ou quando a mãe da gente faz nossa comida preferida.

Quisera eu ter a silenciosa paciência dos ipês, a modéstia silenciosa dos ipês. Tivesse eu um pouquinho só dessas suas qualidades, e talvez soubesse reconhecer mais claramente a bênção que é poder estar aqui agora.

Se os posso vislumbrar de longe, já que me mantenho em distanciamento, é o que basta para que minhas pupilas cansadas sejam de novo capazes de reconhecer a beleza que existe e resiste a toda dor.

Alguns, e tenho notado isso por meio de postagens de amigos nas redes sociais, recusaram-se a florescer esse ano. Suponho que sejam eles os mais sensíveis, talvez sua tristeza em assistir a tantas mortes e tanta indiferença por parte de alguns tenha lhes impedido a alegria de florir. Talvez estejam apenas guardando carinhosamente suas flores mais vivas para, no tempo oportuno, celebrar a vida, que sim, vai retornar e espero eu ganhe ares mais respeitosos e significativos.

E se foi esse pesar respeitoso que os fez menos coloridos esse ano, eu os admiro ainda mais. Com ou sem o espetáculo das flores, eles me ensinam todos os anos, pontualmente no mês de setembro, que a vida é mesmo essa mistura bendita de cor e ausência dela, de pranto e de alegria, de dor e de redenção.

Mais uma vez, eles vieram. E porque vieram, consigo sentir alguma singela esperança!

 

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