O Natal se aproximava. Esse ano, inusitado ano, parecia mesmo que ainda nem tinha vivido tanta coisa assim, e ele já chegava.
O Natal estava à porta, e por esse motivo Aninha andava pensativa. Os bracinhos gordos segurando a face, numa espécie de cena contemplativa.
Ela quase nunca ficava assim. A menina era do tipo que não parava um só segundo. Parecia que vivia ligada nos 220, como costumam dizer.
O que estaria causando-lhe tamanha preocupação, a ponto de não esboçar nenhum interesse nem mesmo pelo farto prato de macarronada servido no almoço?
A mãe já estava ficando preocupada.
Foi quando a menina rompeu o silêncio da dúvida e perguntou-lhe:
- Mãe, eles não vão vir este ano?
- Eles quem? – retorquiu a mãe.
- Ah, você sabe! José, Maria e o menino!
- Ué? Mas por que eles não viriam?
- Mãe, a gente não tá no meio de uma pandemia? Eles não vão poder vir!
- Sabe, Ana... Tem certas coisas que não mudam, mesmo diante das maiores dificuldades e dos maiores desafios. Eles não virão mesmo, você tem razão. Mas fique tranquila...
- Como é que eu vou ficar tranquila, se você acabou de confirmar que eles não virão?, e nessa hora, os olhões verdes de Aninha já enchiam-se de lágrimas.
- Ei, é simples. Eles não virão, porque já estão aqui. Sempre estiveram, na verdade.
- É sério, mãe?
- É sim! Você não consegue sentir? Lembra de quando te contei que consigo sentir o Natal chegando pelo cheiro do vento desde criança? Eu me lembro de que você riu, achou engraçado, mas é verdade. E o cheiro do Natal já está por aqui. Dá para senti-lo até mesmo sob a máscara. Isso significa que eles já chegaram. Sabe, minha pequena, o amor não ignora o mal, nem o vírus, nem mesmo a doença, mas o amor os vence.
E é por isso que, mesmo diante desse cenário que estamos vivendo, eles jamais deixariam de vir.
A despeito do mal que criamos, de toda nossa irresponsabilidade com a natureza, nossa crueldade e nosso egoísmo, a despeito disso tudo, eles sempre estiveram aqui.
E haverá Natal, porque absolutamente nada pode impedir a manifestação do amor dEle.
Talvez o menino nasça numa favela, talvez José esteja desempregado e Maria aflita por dar à luz em meio a uma pandemia. Mas ele vai nascer. Mais uma vez, o menino vai nascer!
Aninha sorri, aliviada... Afinal, este ano lhe privou de tantas coisas, da escola, do contato com a professora e os amiguinhos, dos passeios, das viagens... Seria horrível se também fosse responsável por simplesmente cancelar o Natal.
- E o Papai Noel, hein? Não quer saber se ele virá?, dizia a mãe, enquanto fazia-lhe cócegas.
- Eu sei que ele não vai vir, mãe. Ele é do grupo de risco, não é? Mas não tem problema. Tenho certeza de que ele vai mandar um ajudante mais novo.
E riram. Porque haverá Natal, porque eles já estão entre nós!
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