Em uma sociedade manipulada pela mídia, que segue vestindo suas meninas tal qual mulheres vulgares, verdadeiras aspirantes a “periguetes”, o tempo todo bombardeadas com medidas e modos de agir preestabelecidos pela indústria do Ter, o que dizer de um programa como o idealizado por Roberto Bolaños? No qual a inocência, hoje negada às crianças, ocupava espaço principal.
Kiko, Chiquinha e Chaves eram crianças exercendo seu direito de serem crianças. E parece mesmo que esse direito vem sendo negado à maioria de nossos pequenos hoje em dia, já que eles “crescem” precocemente na companhia de celulares e tablets e jogos eletrônicos e redes sociais, que acabam por apresentá-los às malícias de todo tipo, ao sexo, à pornografia ou simplesmente a uma vida “adultizada”, que não deveria fazer parte dessa fase de sua existência.
Daí meu reconhecimento ao trabalho de Bolaños.
Era como se fôssemos, ao assisti-lo, devolvidos, mesmo que por alguns minutos apenas, à atmosfera sadia de nossa infância, tal como ela deveria ser.
O menino do barril nos relembra quem um dia fomos, bem como aquilo que nossas crianças deveriam ser. E o que estamos fazendo com elas, afinal?
Transformando-as em miniprotótipos de nós mesmos, repetindo os mesmos erros, que já nos afastaram tanto da imagem e da semelhança dEle...
Sinto saudade do tempo em que assistia ao Chaves, com um copo de leite gelado com groselha nas mãos. Sinto saudade do tempo em que ser criança era tão mais simples. E nos vestiam como crianças, nos tratavam como crianças, e a gente não tinha pressa alguma de crescer.
Pudéssemos, permaneceríamos a vida toda assim, assistindo ao Chaves, com um copo de leite gelado com groselha nas mãos. E a inocência, essa palavra tão démodé nem precisaria ser pronunciada, de tão natural.
E brincaríamos, e desejaríamos ter uma bola quadrada, e sofreríamos, e choraríamos, e comeríamos muitos sanduíches de presunto... e a vida seria tão doce quanto um enorme pirulito multicolorido.
Se fôssemos corajosos o suficiente para ousar voltar a ser criança. Tal qual Ele nos ensinou um dia. Tal qual Bolaños docemente se encarregou de lembrar-nos.
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