Em Dia com o Leitor II: Artista relata fatos sobre instalação e retirada de monumento da Avenida dos Imigrantes

O artista plástico Elvio Santiago enviou ao Jornal Em Dia um e-mail em que relata alguns fatos sobre a instalação e a retirada de um monumento em homenagem a Itália que foi feito por ele para ser colocado em uma rotatória da Avenida dos Imigrantes.

Ele lamenta que o povo bragantino não tenha dado o devido valor à escultura e que ações políticas tenham interferido no projeto inicial, que era transformar a avenida em uma galeria a céu aberto.

Entenda:

 

A ESCULTURA TROCADA POR UM POSTE

Vi no Facebook referência à escultura por mim executada em 2002 em uma rotatória da Avenida dos Imigrantes que dizia: “Cada cidade tem o monumento que merece” ou qualquer coisa assim. Eu completaria: “Cada cidade tem o Artista que merece”. Por isso, permaneço em Jundiaí.

Essa celeuma daria um livro e cheguei a pensar em escrevê-lo.   A foto em dupla resolu-ção traz do lado esquerdo a minha escultura e do lado direito uma Brasília branca listrada (pintada como uma zebra) em preto.

A minha obra de arte foi demolida por alguém que não entende ou não gosta de arte e deve adorar carros velhos. Algum tempo depois de ver a Brasília me ocorreu um fato intrigante.

Na década de 90, vendi para uma agência de automóveis aqui de Jundiaí chamada Crimauto uma Brasília branca. Quando tiver tempo para ir a Bragança quero vê-la de perto.  Ela foi revendida para um cidadão bragantino que trabalhava em um cartório aqui em Jundiaí e levada para Bragança. Se for a minha “Brazuca” está resolvido: é uma obra de arte! Ela deve ter no banco dianteiro do motorista, ainda, o afundado do meu glúteo. Nunca imaginei assinar uma obra de arte com essa parte do meu corpo em toda minha vida de artista. Como quase tudo é valido, nos dias de hoje, está aí a explicação.

Para os menos avisados, vai um lembrete: Uma obra de arte para ser chamada de obra de arte deve conter pelo menos dois componentes primordiais: FORMA e CONTEÚDO.

Forma a Brasília tem. E o conteúdo?

Explico melhor. Na minha ESCULTURA – Homenagem à Itália – sobressaiam a forma e o conteúdo desta maneira: uma moldura acadêmica cortada em 45 graus emergia da terra sustentada por duas colunas romanas. De um lado, pelo menos quatro valores eternos de Roma, cidade mais representativa da cultura italiana: O Vesúvio: de tantas tragédias e histórias. O Coliseu: marco das civilizações romanas cristãs, a torre inclinada da cidade de Pizza e os Cedros, tão comuns em toda Itália, representando a flora da Península Itálica.

Do outro lado: as três cores da bandeira italiana (não a bandeira em si como alguém quis interpretar) tendo ao fundo uma cruz branca, representando a fé católica instalada no Vaticano, país independente, porém, incrustado na própria Península Itálica.  Aí estão forma e conteúdo.

Pergunto!

E na Brazuca, o que há? Apenas forma.

No meu Manifesto falo sobre o Dadaísmo. A intenção da Brazuca era ser uma manifestação Dadaísta?  Será que o autor sabe o que é Dadaísmo? Então ela (a Brazuca) deveria ser destruída para que se cumpram os propósitos da famigerada escola do começo do século 20 e de quem só restou o nome por falta de conteúdo “das obras”.

Em 12 anos não recebi um único pedido de informações sobre a escultura das Escolas Municipais e Estaduais de Bragança Paulista. Apenas uma vez um cidadão bragantino, descendente de italianos, me telefonou para dizer que a bandeira da Itália estava de ponta cabeça. Disse a ele então: Não percebeu que não é uma bandeira. É apenas a alusão às cores da Itália. E Bragança silenciou sobre a minha obra. Nunca explicaram ao cidadão bragantino o que ela representava.

Algo semelhante aconteceu com o meu mestre Caciporé Torres (de quem fui assistente) sobre uma sua escultura em aço inox escovado, em frente ao Shopping Ibirapuera. Ela é hoje conhecida como “praça da latinha”. Povo inculto e mal instruído.

Não gostou? Critique. Mas, critique com fundamento. Não venha com subterfúgios.  Pense e se instrua antes de contestar. Esse é meu conselho.

Por outro lado, centenas e centenas de crianças e adultos de Jundiaí pesquisaram minhas esculturas, telas, gravuras, incluindo as de Bragança. Na semana passada, uma escola de Várzea Paulista (em minha homenagem), em visita que fiz, ostentava no pátio uma foto de uma escultura de Bragança como obra de Elvio Santiago. Parece piada, não? É de corar até os mais pálidos, não acham?

O projeto: do projeto inicial constavam oito esculturas em toda a avenida. Os materiais empregados e as escolas de Arte percorridas seriam diferentes em cada rotatória. (Deveria ser uma Galeria a céu aberto. Na minha proposta, eu dizia que seria uma grande motivação para um turismo de alto nível para a cidade e referência nacional). Deu no que deu.

Variando do concreto armado, passando pelo acrílico e outros nobres materiais e terminando com aço carbono. Mas, quis a política, que as obras fossem transformadas em material de propaganda para obtenção de votos junto às colônias estrangeiras da cidade. O projeto total demoraria entre um ano e meio e dois anos para ser executado.

Em reunião numa sala da Prefeitura com o então prefeito, secretários (estávamos eu e meu filho Rodrigo) que infelizmente não está mais aqui para dar seu testemunho, recusei fazer as esculturas restantes. O prefeito queria que as outras seis esculturas fossem feitas em dois meses para serem inauguradas antes da eleição de um deputado da região. Como não sou mercenário e como não havia sido convidado para a inauguração da minha obra, disse não e me retirei da sala. As restantes “Esculturas” foram dadas por fazer a pessoas ligadas a escolas de samba, conforme informações recebidas. As outras “esculturas” são na realidade alegorias. E o deputado foi eleito.

O projeto inicial está arquivado na Prefeitura. Nele constavam que as obras deveriam receber restauros entre cinco e dez anos pelo próprio autor. Essa cláusula foi cortada. Quando a escultura do Japão começou a sentir o peso do tempo e da fuligem da Avenida fui chamado para restaurar. O meu orçamento não foi aceito. O então secretário de Cultura mandou um pintor de paredes caiar a escultura, descaracterizando a obra inicial.

Não bastasse isso apareceram dois cidadãos requerendo direitos autorais dos meus projetos. Um deles fui obrigado a chamar na Justiça. Recebi ameaças. Ele queria comissão sobre o valor cobrado por mim.

Esta é toda a verdade sobre as obras da Avenida dos Imigrantes de Bragança Paulista.

 

Elvio Santiago, artista plástico e escritor”

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