Há muitos e muitos anos, havia um reino abençoado pelos deuses. E deusas. Era de uma beleza natural estonteante, e de igual riqueza, talvez por isso, tenha atraído, ao longo dos séculos, piratas e todo tipo de exploradores. A alguns deles, convencionou-se chamar colonizadores.
Lá, havia abundância de espécies naturais, riquíssimas fauna e flora. O povo, oriundo da magnífica miscigenação, conseguia ser ainda o melhor do lugar. Mas, claro, havia exceções.
Com o passar do tempo, muitos se brutalizaram, e movidos por um sentimento horrendo de ódio, forjaram um golpe que tirou a rainha do poder, substituindo-a por um ex-membro do exército.
O reino, desde então, já não era mais o mesmo. O novo rei, absolutamente despreparado e raivoso, destilava palavras de ódio em seus discursos longos, tediosos e quase incompreensíveis, incitando seus seguidores à intolerância.
É nesse cenário que acontece a história que vou contar-lhes agora.
Havia nesse reino um monstro, sim, um monstro, que havia sido banido de lá pelas forças do bem, mas que, há pouco, retornara de seu forçoso exílio.
Retornara, e ao retornar, encontrara, para seu deleite, a criatura mais pura que podia haver. A fadinha, órfã de mãe, era, pasmem, sobrinha do monstro. E por que monstros não se redimem nunca, ele a violentou. Por anos!
Sim, violentou uma criança de seis anos, que devia estar com suas irmãs fadinhas, brincando entre as flores, rindo e se ocupando apenas do exercício bendito de ser uma criança.
E o fato é que ele continuaria a fazê-lo não tivesse o fato chegado ao ouvido do povo, porque a pobre fadinha, aquele ser encantado e puro, ainda criança, carregava no ventre o fruto de sua desgraça.
O monstro, covarde e asqueroso, como todos os monstros que já viveram e vivem ainda naquele reino, tratou de fugir.
Ela, criança, frágil, violentada, mortificada, não podia ser mãe aos dez anos de idade!
O conselho real decidiu então chamar seus doutores e interromper aquela gestação tenebrosa.
“Assassina!”, gritavam do lado de fora da sala os fundamentalistas religiosos. Sim, o reino estava repleto deles.
As bruxas, essas mulheres sábias e fortes, odiadas pelos porcos machistas, vieram de toda parte do reino, defendê-la. Sim, defender a vida da pobre fadinha. Ainda posso ouvi-las... Como me orgulho de ser uma delas...
“Assassina!” era a fadinha violentada por intermináveis quatro anos pelo monstro a quem um dia chamou de tio.
Encontrado, o maldito ainda sugeriu que aquele “filho” não era seu. Ao que se deduz então que a pobre fadinha não era alvo apenas de seus ataques, mas os sofria por parte dos outros dois homens que habitavam a casa.
Dez anos! Assassina!
Mortificada em vida.
Maldito reino, malditas sejam toda hipocrisia e toda violência!
Se os deuses ainda olham por aquele reino, se as deusas, que choraram a dor daquele pequeno ser ainda se compadecem de suas irmãs mulheres, rogo-lhes que deem a elas a força necessária para libertarem-se!
Fim
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