Conforme o Jornal Em Dia noticiou, na edição de 9 de outubro, estudantes das escolas Siles Coli, Ismael de Aguiar Leme, Mathilde Teixeira de Moraes e Fernando Amos Siriani tiveram seus textos classificados para representar a cidade na próxima etapa da Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro.
No dia 10 de outubro, chegou ao fim o trabalho de seleção de textos semifinalistas e um aluno de Bragança Paulista foi selecionado. Luís Henrique Vieira, estudante do 8º ano C, da Escola Estadual Mathilde Teixeira de Almeida, está classificado para a etapa regional da Olimpíada. O texto que lhe rendeu a classificação é “Meu pedacinho de chão”, que disputa o concurso na categoria Memória Literária.
Nos 26 estados e no Distrito Federal, comissões julgadoras leram e escolheram os textos que representarão cada Unidade da Federação nas etapas regionais do programa, as quais escolherão, por sua vez, os finalistas. Foram selecionados 500 textos, 125 por categoria, garantindo que cada estado brasileiro e o Distrito Federal tenham, no mínimo, um representante em cada um dos quatro gêneros. A comissão organizadora do concurso informou que o número total de vagas de cada estado para a semifinal da Olimpíada depende do número de textos enviados para a etapa municipal.
No portal Escrevendo o Futuro, https://www.escrevendoofuturo.org.br/, é possível consultar as listas com os nomes de todos os selecionados nas quatro categorias, bem como seus professores, escolas e cidades.
A oficina da categoria Memória Literária, para a qual um aluno bragantino foi selecionado, ocorrerá em Maceió, a partir da próxima segunda-feira, 3. As demais categorias realizam suas oficinas em Belo Horizonte, Porto Alegre e Brasília.
Esta etapa selecionará 28 textos finalistas de cada categoria e a grande final acontece no dia 2 de dezembro, em Brasília.
Acompanhe o texto de Luís Henrique Vieira:
Meu pedacinho de chão
Onde vivo é um paraíso. Parece que foi ontem que cheguei por aqui. Era uma subida, hoje uma descida e poucos carros a passar. Um pequeno pedacinho do interior do estado de São Paulo. Tão interior que é a penúltima cidade, quase chegando a Minas Gerais. Bragança Paulista, terra da poesia como muitos chamam até os dias de hoje.
Também chamada de Terra da Linguiça, pois, a linguiça que preparavam em suas casas e vendiam pelas ruas eram tão saborosas que ficou a fama. Lugar calmo, simples e pouco movimentado em suas ruas e avenidas.
Aqui, os vizinhos preocupam-se uns com os outros, às vezes até demais! A maioria dos meus vizinhos já tem mais de quarenta anos, então os melhores conselhos são deles.
Sempre aos domingos, quase todos estavam acordados logo cedo e o bar do seu Zé, sempre lotado com gente querendo jogar bilhar ou assistir jogo na televisão, enquanto uns lavavam seus carros que eram bem diferentes dos de agora! Eram brasílias, fuscas e opalas, outros buscavam pão e depois, na hora do almoço, um cheiro de churrasco invadia as casas ao som de músicas dos mais variados gostos, enquanto a molecada, em sua grande maioria, assim como eu, sempre observando onde melhor o vento soprava para soltar pipas. Tempo bem mais calmo que agora.
Nas férias, as pipas tomavam conta da rua, mas era lá do outro lado que o espetáculo acontecia. É que do outro lado da rua tinha um cafezal que chovia de pipas, eram tantas que a molecada nem se dava conta do céu azul, pois, as pipas coloriam o céu. Era uma verdadeira pintura na tela da imensidão.
Além de soltar pipa, eu inventava algumas brincadeiras, e até nadava e pescava no lago do Orfeu, lembro-me também que tinha um campinho lá no Lavapés onde costumávamos jogar bola e por lá tinha um pé de pêssego que a gente costumava pegar os pêssegos emprestados, só que nos esquecíamos de devolver. Ao entardecer a gente ia brincar de taco na rua. Lembro-me de um dia que o homem do artesanato, fez um taco especial e deu de presente pra gente, foi uma festa. Quando não estava chovendo, saíamos aos bandos com carrinhos de rolimã a descer as ladeiras do Parque dos Estados, esse é o nome do bairro onde cresci, pois, cada rua tem o nome de um estado brasileiro. Homenagem aos nordestinos meu pai dizia.
Era fácil passear pelos estados do Brasil sem sair longe de casa. Paraná e o belo Amazonas eram as ruas mais disputadas, devido sua altura, os carrinhos ganhavam maior velocidade, tanta que, se me lembro bem, foi lá que ralei meus joelhos que na hora de tomar banho, era uma tortura. Na hora do almoço minha mãe surgia por entre a garotada com um avental cheio de panelinhas e copinhos coloridos gritando que já era a hora do almoço. Depois da janta, um esconde-esconde pelo cafezal era sagrado.
O tempo passou depressa demais. Agora, nosso parque tá tão diferente! As ruas? O asfalto passou lambendo tudo e as casas que a Caixa hoje faz são bem diferentes das daquele tempo. Não se sente mais o cheiro de terra molhada quando chove e não é mais possível fazer os buraquinhos no chão para os campeonatos de bolinha de gude. O cafezal ainda sobrevive com uma pipa ali e outra acolá. Tempo bom que já se foi. Não se precisava gastar dinheiro para se divertir porque dinheiro a gente não tinha mesmo.
Tudo em nossas mãos virava brinquedo e brincadeiras. Quando a gente é jovem, tudo pra nós é marcante. Qual criança de hoje em dia sabe brincar de passa anel, bandeirinha, pega-pega ou polícia-ladrão? Qual delas joga bolinhas de gude, pião ou amarelinha? Até violãozinho de lata eu fazia. Agora, tudo foi substituído por celulares modernos e jogos bem diferentes dos nossos.
Hoje estou bem mais velho, minha terra também. As brincadeiras de infância são apenas histórias perdidas na memória que agora renasceram para fazer brilhar os olhos desse que aqui agora ouve com uma atenção que emociona esse humilde morador bragantino. Com tudo isso que revivi me faz acreditar nos sonhos, pois, assim como eu me encontrei nessas memórias, o que impede que o hoje também seja palco das histórias no amanhã de cada um que por aqui vive? Porque as memórias nunca morrem, apenas adormecem com seus donos.
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