Por Mário Pedregoso
À luz de vela no ateliê
O festival “Séries Instrumentais” teve início na tarde do dia 5, quinta-feira, com a residência musical. A abertura ocorreu no Atêlie da Fazenda Serrinha e contou com a presença dos músicos Marcos Suzano, Alex Meirelles e Maurício Negão, além dos músicos inscritos. O ambiente não poderia ser mais propício para incitar o espírito artístico.
As ideias verbais começaram a se transformar em ideias musicais e o intercâmbio entre os músicos ganhou um outro campo de comunicação. O som dos instrumentos irrompeu tarde adentro e só cessou de ser ao anoitecer.
Um pouco antes do show do violonista Rafael Schimidt, o espaço do Atêlie estava invadido por um clima intimista, no qual a diferença entre músicos e plateia já não se fazia evidente. A iluminação à luz de velas aproximou ainda mais as pessoas e a impressão geral é que se estava na sala de casa. Quando Rafael subiu ao palco e fez seu violão se expressar, a música tornou-se a protagonista da noite e todos se voltaram a admirar a beleza das composições e a versatilidade técnica das execuções.
Noite chuvosa à luz de velas com um herdeiro do clássico violão brasileiro. Nada mais perfeito para a música recuperar sua vocação: a de aproximar pessoas.
Cyberpsicodelia Atômica
O segundo dia do Festival destacou-se pela arquitetura vanguardista do Teatro Rural Busca Vida e a sonoridade cyberpsicodélica de Suzano, Alex Meirelles e Maurício Negão. O prelúdio do que viria a ser a apresentação do trio pôde ser pressentido durante as atividades da residência musical, que aconteceram no período da tarde na Fazenda Serrinha. Suzano discorreu sobre o uso das novas tecnologias na música e contou um pouco como tem pensado o uso desses instrumentos em sua música.
Mas foi no palco do Teatro Rural Busca Vida que se pôde ter uma ideia mais definida de como Suzano tem usado as novas tecnologias atuais em sua música. O show transcorreu alternando músicas de batidas mais pesadas, que prendiam o ouvinte a terra, e experimentações transcendentais, que elevavam os ouvintes às alturas.
Música instrumental brasileira? À primeira vista poderia se pensar que não, pois não é típico identificarmos a MIB com as experimentações eletrônicas e tecnológicas. Mas engana-se quem se limite a essa visão, o que se presenciou foi a ousadia de músicos, formados na velha guarda, buscando construir um diálogo entre a tradição da música instrumental brasileira e as novas sonoridades tecnológicas. Em poucas palavras, uma experiência cyberpsicodélica de ritmos brasileiros.
Embalos e maquinismos
Na terceira noite do Séries Instrumentais, o público foi privilegiado não com uma, mas com duas grandes apresentações de estilos muito distintos. O contraste entre os estilos não só ressaltou a riqueza da música instrumental brasileira, mas serviu também para evidenciar que a música instrumental não é pautada por limites rígidos de gênero. No fundo, a música é uma linguagem universal.
A primeira atração a ocupar o palco foi a banda Cheesehead e contou com a participação especial de Dudu do Banjo, um dos pioneiros da música instrumental no Brasil. O estilo inconfundível de Dudu comandou o tom do que foi o show: puro balanço. João Della Vecchia no baixo e Matheus Canteri na guitarra não deixaram por menos e fizeram seus instrumentos swingar do início ao fim.
A segunda apresentação iniciou madrugada adentro com a banda Tigre Dente de Sabre. Nada mais adequado para o som ritualístico e cênico da banda. O ritmo hipnótico de uma ‘rave erudita’ dominou a plateia logo na primeira música. A partir dali, com suas programações eletrônicas, a performance frenética e alucinante de Gui Calzavara, na bateria e trompete, e Marcos Till, no baixo e sintetizadores, conduziram o público a um catarse coletiva. Pura potência em que o tom épico foi dado pelo incessante embate entre a organicidade dos músicos e a precisão implacável dos agenciamentos maquínicos.
Ode sinfônica
O último dia do “Séries Instrumentais” teve início no período da tarde, com a realização de uma jam session que reuniu os músicos participantes da residencial musical realizada na Fazenda Serrinha. Por duas horas, os residentes exprimiram as ideias desenvolvidas durante os três dias de vivência musical.
O momento de improvisação foi aquecendo o público que, aos poucos chegava para apreciar o show de encerramento comandado por Meno Del Picchia, que não só trouxe a banda Trio Improvisado como também contou com um convidado muito especial, o músico Bocato, um dos maiores trombonistas da música brasileira.
A apresentação alternou baladas cadenciadas e grooves dançantes, compondo um repertório de temas jazzísticos em que a elegância e o rigor dos arranjos e das execuções destacaram ainda mais a sonoridade aveludada do conjunto. Uma verdadeira ode ao que há de mais fino e sofisticado na tradição da música instrumental.
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