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Crônicas de um Sol Nascente

Força humana

Hoje, esta crônica poderia ser mais uma daquelas que pipocam no final do ano falando sobre a importância do espírito natalino. Também eu poderia estar escrevendo a respeito do Natal no Japão – o que, aliás, já fiz em anos anteriores: um tema que, na verdade, sequer é tão rico, visto que o Natal japonês resume-se a um consumismo exacerbado durante os meses de novembro e dezembro – ou seja: uma data comercial apenas, com o objetivo de aquecer a economia quando o outubro do Halloween termina.

Não, hoje quero falar de um assunto que pode parecer inicialmente estranho para esta época do ano, mas que, verão, não é tão fora de propósito assim. Trata-se de minha recente ida ao Departamento de Imigração de Tóquio. Explico: tenho um visto permanente – uma espécie de “green card”, que me dá todos os direitos que um cidadão japonês possui (exceção feita ao direito de votar e candidatar-me, o que, francamente, não me faz a menor falta). Porém, mesmo com o visto permanente, a cada sete anos tenho de ir à Imigração para renovar o meu cartão de residência; um procedimento simples na verdade, mas que não deixa de ser chato. Digo chato, pois, apesar de ser feito tudo de modo rápido (recebo o cartão no mesmo dia), tal procedimento significa ter de lidar com funcionários da Imigração, o que, em qualquer parte do mundo, não é das coisas mais agradáveis da vida. E, no caso da Terra do Sol Nascente, o idioma é a arma por eles usada para atormentar ainda mais o estrangeiro. Por exemplo, nos sites para informação, se você não lê em Japonês, ou pelo menos tem um amigo japonês que o ajude a ler, será duro até mesmo encontrar a lista dos documentos necessários para não perder a viagem até o Departamento de Imigração. E isso é só o começo, pois, chegando lá, dificilmente encontrará algum funcionário falando em Inglês durante o atendimento. Resumindo: ou você se vira falando no idioma deles, ou vai ficar mais perdido do que cachorro em tiroteio.

Sempre achei que quem criou essas agências de imigração foram os mesmos responsáveis pelos campos de concentração na Segunda Guerra. Porque é impressionante como os funcionários desses locais são treinados para serem sádicos. Algo como: já que esses estrangeiros precisam de um documento para viver em nosso país, vamos torturá-los ao máximo. De modo que só nos resta suportar e, depois, com o desejado documento na mão, celebrar o fim (melhor dizendo, a pausa) do martírio.

Mas, bem, eu ia falar de força humana. Onde a expressão entra nesta crônica? ¯ vocês devem estar se perguntando a essa altura. Ora, justamente na sala de espera da Imigração. Pois, naquela manhã, vendo pessoas das mais variadas nacionalidades batalhando no local por seus objetivos, veio-me este pensamento: o de quanto a humanidade pode ser forte quando se trata de buscar um sonho. Afinal, cada um naquela sala, incluindo quem vos escreve, deixou sua pátria, sua família – suas raízes, enfim –, em busca de uma vida melhor. E tal decisão, podem crer, sempre é dolorosa. De modo que, observando tal força de vontade, concluo: haverá, como sempre, anos bons e ruins, mas, no final, a humanidade há de resistir... e triunfar.
Boas festas!

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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