Desde criança que tenho uma prática, um tanto quanto desaconselhável por alguns, mas muito natural para mim. Toda vez que ganhava uma roupa nova, ou mais tarde, quando as comprava com meu próprio dinheiro, tratava de usá-la logo, se possível no mesmo dia.
E minha mãe, com sua prudência de mãe, advertia-me: - Raquel, tem que deixar sempre algumas peças novas, sem usar, no guarda-roupa, tem que ter uma reserva...
E eu até compreendia o seu raciocínio, mas dentro de mim ele não fazia muito sentido, e então, como tudo aquilo que aprendemos, mas não apreendemos por não julgar que seja importante ou parte de nós e de nossa essência, eu desobedecia esse seu conselho de mãe zelosa.
E o fato é que sigo assim até hoje.
Mas o pior eu ainda não revelei, eu aplico essa minha prática desajuizada a outras áreas além das que ocupam as gavetas. Eu não guardo amor, não guardo cuidados, não guardo carinhos, não guardo dedicação. Eu ofereço a quem amo HOJE. E posso até ser tida como doida por isso, ou intensa demais, exagerada ou dramática...
Mas na minha percepção peculiar, ou esquizofrênica do mundo e de mim mesma, o hoje é o que tenho. E então, qual o sentido de guardar o que quer que seja para depois?
Posso parecer inconsequente, mas considero a vida mesmo muito passageira, quase como um sopro, por isso, acredito que devemos desfrutar dela, com responsabilidade sim, mas também com a urgência de quem não conhece o próximo ato. De repente, não mais que de repente, a cortina de fecha...
E o que fizemos durante o tempo que durou o espetáculo?
O amor que ofertamos hoje nunca será perdido, aqueles que foram agraciados com ele viverão conosco eternamente nas lembranças que os farão sentir-se ainda mais vivos.
Porque é o amor a engrenagem que move esse mundo e não há razão, portanto, para negá-lo a quem quer que seja.
É estranha a sensação de quando olho minhas gavetas vazias. É estranho, porque apesar de seu vazio, sinto-me plena, cheia de vida, repleta dEle.
Talvez fosse esse o desejo mais íntimo dEle para conosco, que aprendêssemos a viver de gavetas vazias, tal qual Seu filho, encarnação do Amor, o fez. O Cristo salvador não acumulava nada, antes, tudo repartia, e como estava pleno do Pai assim!
Nem sequer possuía um móvel onde ter gavetas, e as outras, as gavetas de sua alma, estavam sempre vazias e sempre contraditoriamente cheias da paz que provinha de obedecer cegamente ao Pai.
Acho que levo mesmo muito a sério a ideia do Carpe diem, talvez por isso minhas gavetas andem vazias, mas meu coração e minha alma, repletos de vida, da vida que é e só é HOJE!
Que dádiva! Viver é mesmo um risco absurdamente lindo!
E mamãe que me perdoe, e ela sempre perdoa, porque, ao menos nesse quesito, vou seguir contrariando-a, eu não guardo nada e pretendo continuar de gavetas vazias.
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