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SUB-VERSÃO

Gol do Brasil!

Não, não havia jogo naquele dia. A seleção não entraria em campo. Mas a torcida... A torcida de fato sempre estivera ali, e quase que poderia passar despercebida em meio à multidão de gente de bem, aliás, a torcida é toda ela composta por gente de bem desesperada, desejosa de ver o mau.

Naquele fatídico 20 de agosto, o mau veio, e estabeleceu morada por algumas horas sobre uma ponte. Ponte movimentadíssima, dizem que por lá costumam passar milhares de pessoas diariamente, gente da torcida, sabe, gente de bem.

Não, ninguém gritou gol, apesar de o cenário ser o Rio de Janeiro, não, o Maracanã não estava lotado. Há dias em que a dureza do cotidiano supera em muito qualquer espetáculo. Há dias em que a vida, essa corda bamba eterna, pendendo sempre morte pro lado mais fraco, é ela a própria, a principal atração.

No ônibus lotado, aí sim, o espetáculo em si. Sobre a ponte, o escárnio. E eu me pergunto: o que fizemos com nossas próprias pontes? A ponte que nos liga ao outro, que nada é além de nosso semelhante, onde foi parar? Quem é que nos sequestrou de nossa humanidade?

Vinte e quatro anos. Um dia de fúria, talvez. Algumas horas de tensão e... O gol! A comemoração que a ele se segue é impressionantemente natural e desavergonhada.

Todo um estádio em êxtase. Pessoas de bem comemorando uma morte. Mas ele estava armado, argumentarão alguns. A arma era de brinquedo, dirão outros. E as pessoas feitas reféns no ônibus não contam? Há quem se pergunte.

Não sou ingênua, e, portanto, sei que há situações em que o uso de snipers e tiros é inevitável, a fim de que se preservem vidas. Mas a questão aqui não é essa. A questão aqui é a da comemoração, da celebração da morte.

Ele não se conteve, e diante das câmeras, celebrou tal qual se celebra um gol de final de copa do mundo, a morte de uma pessoa. A arena romana soaria mais gentil diante desse quadro.

Mas sabem, isso nem novidade é. Todo dia celebra-se nesse país a morte de alguém. Normalmente, é alguém negro e pobre, morador de favela. A maioria, inclusive, jovens. Não sei o que acontece com a mira do sniper nessas horas, ou vai ver é proposital, só pode.

A imagem do avô, com a camisa banhada no sangue do neto, atingido numa operação policial, vai demorar a sair da minha cabeça. Sua fala então dói em mim como fosse faca enferrujada cortando-me, sem dó a pele: “Eu carreguei ele quando ele nasceu, e tô carregando agora, morto”.

Eu carrego esse país na alma há exatos trinta e cinco anos, mas a impressão é que já envelheci com ele, como quem envelhece de uma tristeza profunda, como a morte de um filho. O Brasil celebra sua própria morte todos os dias. E há algo de tão esdrúxulo nisso, que nem sei como definir.

Inclusive agora deram pra matar até bicho, matando neles e com eles nossa floresta, seu lar.

Todo dia é dia de alguma celebração macabra e maldita nesse país. Todo dia é dia de gol!

“Como ser humano, fui ajudar, porque naquele momento a dor é dos dois lados. Eu não tenho poder de julgar nem falar qualquer coisa que seja boa. Só falei para ela ter calma e confiar. O que eu vou dizer para ela, de conforto? Não tem o que dizer”, contou Paulo. O pai de Raiane ainda contou que irá orar pelos familiares de Willian: “Infelizmente aconteceu isso com ele. Deus não quer isso para ninguém, mas naquele momento não tem o que fazer. A gente ora pelos familiares, pela mãe dele. Mas ainda bem que minha filha está bem”, finalizou...

Palavras de Paulo César Leal, pai de Raiane Leal, uma das vítimas do sequestro do ônibus.

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