(Texto em memória do professor e escritor Marco Aqueiva)
Ainda lembro-me como se fosse hoje, e já se passaram quatorze anos, do dia em que conheci o professor Marco Antônio. Cursava o primeiro ano da faculdade de Letras, não passava de uma menina de dezessete anos, cheia de sonhos e inseguranças a respeito do futuro, que escolhera o curso de Letras por gostar de escrever, simplesmente assim.
Marco falava com propriedade e paixão, e era como se essas características não pudessem existir uma sem a outra em suas explanações durante as aulas, que mais pareciam odes à literatura, em especial à literatura portuguesa, matéria que lecionava no primeiro ano.
Marco era a própria encarnação da poesia, valente e corajoso como aqueles que ousaram navegar por mares nunca dantes navegados, sonhador e utopista como um Sancho pós-moderno, cujas batalhas as travava contra a injustiça, a ignorância e o desamor.
Dono de uma delicadeza no trato com seus semelhantes que nunca vira igual, o tipo de bondade que só encontra solo fértil onde brotar e se frutificar no coração dos mais corajosos mesmo.
Generoso e genial à mesma medida, larga medida. Paciente e esperançoso, do tipo mais bonito e necessário, daqueles que trabalham diariamente em esperançar.
Sua contribuição para o ensino em seu sentido mais humano jamais será esquecida, assim como sua riquíssima contribuição para o cenário literário brasileiro contemporâneo.
Professor, poeta, ser humano ímpar, Marco levou com ele, pela curva da estrada, que Pessoa nos alertou ser a morte, todas as palavras. Tenho pra mim que elas, por livre e espontânea vontade decidiram ir com ele, e hoje, no reino encantado das palavras onde vivem e viverão para sempre aqueles que as amam, lhe fazem companhia.
De lá, de onde nossa vista míope não alcança, ele as está entretendo, escolhendo-as com a sabedoria que lhe era peculiar, uma a uma, enquanto elas, tais crianças desesperadas por atenção, gritam para que sejam as próximas. Ah, as palavras todas sempre quiseram lhe pertencer... E ele ainda as está escrevendo, acreditem, e quem escreve se imortaliza em sua escrita.
Marco, mais do que isso, fez-se imortal por suas qualidades extraordinariamente humanas.
Sinto-me privilegiada por ter podido conviver com ele ainda que por um breve espaço de tempo. Mas afinal, a vida não é isso mesmo? Um breve espaço de tempo, apenas um intervalo entre uma aula e outra...
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