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SUB-VERSÃO

Mal passada

Deixar a escola foi difícil, não teve o mesmo cheiro das outras vezes, não teve nenhuma empolgação, mal conseguia olhar pros meus colegas de trabalho a quem ficaria sem rever por um bom longo tempo, tempo que nem sabemos ao certo ainda quão longo será.

Uma escola vazia, e eu já escrevi sobre isso, sempre tem algo de tétrico, falta energia, faltam as vozes adolescentes se firmando, falta o ânimo de se descobrir sujeito, falta a interação absolutamente bonita entre os seres humanos extremamente complexos e únicos que diariamente a compõem.

Foi difícil também compreender que o momento é de absoluta reclusão e ela é sim, necessária. Foi difícil explicar às pessoas que o melhor a fazer era simplesmente não fazer: não sair de casa, não se expor ao risco de contrair essa mutação horrorosa desse vírus, que pode ser mortal.

 E tudo isso porque talvez nos seja difícil entender que não somos, apenas estamos. E nesse ínterim é relevante considerar a forma como temos interagido com a natureza, e por que não, com nossa própria natureza humana. É, parece-me que a Covid-19 veio nos alertar, mais uma vez, sobre nossa total vulnerabilidade, mas mais do que isso veio nos alertar sobre como más escolhas podem trazer consequências mortais, e isso também no âmbito da política, haja vista as últimas declarações daquele a quem muitos chamam presidente.

Estar em casa, no convívio com os nossos não deveria ser assim tão ruim, como estão tentando nos convencer de que seja. Ruim mesmo devia ser gastar nossa vida, nosso tempo, nossas energias todas trabalhando, ganhando apenas para consumir. Estar com os filhos não devia ser um problema para a maioria dos pais, devia ser um delicioso privilégio.

Mas e a economia? Muitos irão se perguntar.

E eu não sei qual seja a opinião de vocês, mas ao menos para mim, cada vida conta. Então, por favor, por amor à humanidade que ainda existe em nós, não saia por aí reproduzindo o discurso desumano de qualquer empresário multimilionário desse país em clara bancarrota social.

Em partes, eu até compreendo o raciocínio imoral e genocida desse sujeito, porque as 5, talvez 10 mil pessoas que irão morrer, segundo ele, realmente não farão nenhuma diferença em seu balancete mensal, porque elas não frequentam seu renomado estabelecimento, porque os preços cobrados lá não condizem com seus míseros salários, porque nunca porão os pés lá, porque o ambiente nem ao menos condiz com as roupas que vestem. Mas talvez também algumas dessas pessoas a quem a vida e a morte não lhe importa estejam entre seus “colaboradores”, como costuma-se dizer agora. Mas isso também não importa, porque serão facilmente substituídas, tamanho é o desespero de quem está sem emprego.

Eu abomino esse tipo de gente, assim como abomino as declarações absolutamente irresponsáveis feitas pelo mandatário do meu país. Todas as barreiras do absurdo parecem ter sido ultrapassadas por esse sujeito. Trata-se de genocídio o que ele propõe.

Como cidadã brasileira, ser pensante, professora, tia, e sobretudo ser humano, sinto-me completamente ultrajada.

Então, por favor, fiquem em casa. Respeitem seu próprio direito à vida e o direito à vida inerente ao seu semelhante.

Não deem ouvidos a asneiras, sejam elas de onde vierem. E quanto a mim, não consumo carne vermelha há anos, e quando a consumia, a consumia sempre bem passada, porque o sangue, o sangue nunca me apeteceu. E tem muita gente manchando as mãos de sangue nesse país. Asseguro-lhes essa mancha não sairá, nem mesmo com todo o estoque de álcool em gel do planeta.

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