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SUB-VERSÃO

Meninas e palavras

“O doutor vai demorar um pouco, por causa da chuva” – anunciava a recepcionista repetidamente a cada um que se aproximava para a consulta. 

Sim, chovia lá fora, o clima havia mudado drasticamente, de um calorão abafado para o friozinho que vem com a chuva. A chuva persistia, mas tinha seu som abafado pelo murmurinho das pessoas na sala de espera, e pelo barulho comum aos shoppings centers. Sim, a clínica ficava dentro de um shopping.

Ainda bem por isso, porque a espera podia ter sido bem mais enfadonha, não fosse a feirinha de livros localizada bem em frente à clínica, para onde resolvi fugir por alguns minutos, advertindo meu pai de que voltaria logo e que veria acaso o médico chegasse, afinal, ele tinha de passar por ali.

Comecei pelos infantis, claro. Desde há muito deixei de ser criança, mas confesso que ainda nutro o mesmo encanto pelas publicações destinadas a esse público, sempre tão coloridas, alegres. Ah, e aqueles livros que vão se abrindo diante de nossos olhos, de cujas páginas surgem, erguendo-se em papel, castelos, dragões, monstros...

Estava justamente folheando um desses, de contos de fadas, quando uma menininha se aproximou. Já tinha na mão, como que reservado um exemplar do mesmo livro que eu olhava. Olhei mais outro e outro, e quando fui arrumar um que se encontrava meio torto, meio fora do lugar na pilha, minha mão quase que esbarrou na dela. Pois é, tínhamos isso em comum, um certo TOC por organização de livros. Olhamos uma para outra e rimos. Daí talvez ela tenha se sentido à vontade para iniciar uma conversa.

“Eu separei esse livro”, ela disse, mostrando-me exatamente o mesmo exemplar que eu folheava. “Ah, sim, deve ser muito bom”, eu disse. “Você gosta de ler?”, perguntei. Com a sinceridade de que só as almas mais puras são capazes, ela respondeu: “Eu tô começando a ler agora”. “Que bom! Logo você encontra um gênero de que goste mais e aí não para mais”.

“Quem é Sherlock Holmes?” “Um detetive muito famoso”. “A senhora já leu esse também? Quantos livros a senhora já leu?”

Alguns, respondi, ciente de que lera muito poucos, na verdade. “Eu sou professora, é por isso”, disse em meio a uma risada que foi acompanhada pela da vendedora, que obviamente ouvia toda a conversa.

Olhamos mais alguns livros, e ela me segredou que a mãe estava na loja de roupas em frente, e já fazia muito tempo, o que a deixava impaciente. Quanto tempo a mãe ainda ia demorar lá? 

Talvez o suficiente para que ela escolhesse um livro e ganhasse uma amiga. Sim, porque a senhora aqui adora esses diálogos com crianças espirituosas e inteligentes, curiosas e críticas.

Fomos de Perrault a Orwell em poucos minutos. “Vinte mil léguas submarinas? Esse é bom?”. Claro que Júlio também não podia faltar.
Escolhi um livro sobre o corpo humano para presentear meu sobrinho. Curioso feito a tia, é certo que ia gostar. Escolhi um para mim também, com quem me distrair da espera pelo médico.

Foi um tanto difícil me desvencilhar de minha mais nova amiga leitora, confesso, mas precisava voltar à clínica. Despedi-me dela com um tchau, um tchau sem nome. Não me lembrei de perguntar o nome dela, uma pena. Como vou reconhecê-la um dia se ela se tornar uma escritora famosa? 

Sabem, na verdade, pouco importa o que aquela menina curiosa se tornará, importa mais o que ela é hoje, o que foi hoje, o que fomos hoje: uma menina e uma mulher, duas meninas encantadas pelas palavras.

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