Quando cheguei ao Japão, em outubro de dois mil e um, fui logo avisado por um estudante veterano de meu alojamento: “Prepare-se, pois a saudade bate mais forte em dezembro. Isso porque, aqui, não se comemora o Natal!”. Vale frisar que aquela era a primeira vez que eu saía da casa de meus pais – e logo para o outro lado do planeta! De modo que me entristeci ainda mais ao saber que não teria sequer, como conforto, um pouco das luzes natalinas para recordar minhas raízes.
E, de fato, naquele ano, não pude celebrar o Natal; uma vez que – descobri então – vinte e cinco de dezembro era um dia como outro qualquer no calendário japonês. O feriado que havia era no dia vinte e três, por ocasião do aniversário do Imperador Akihito (que recentemente abdicou do trono em favor do filho, o atual soberano). De modo que, em dois mil e um, passei mesmo a véspera do Natal sozinho, no alojamento; imaginando como estariam meus pais e meu irmão na ceia da qual, pela primeira vez, eu não participaria. Enfim, uma noite nada feliz para mim...
Com o passar dos anos, porém, o Natal no Japão foi adquirindo novas feições. E hoje, diferentemente de quando cheguei ao país, as celebrações são bem mais comuns. Ainda que não propriamente de acordo com a tradição cristã.
Sim, caros leitores: o Natal que o Japão assimilou foi o puramente comercial – e com certo exagero, aliás! Isso porque as lojas na “Terra do Sol Nascente” começam a vestir seus funcionários com as roupas vermelhas do “Bom Velhinho” ainda no início de novembro. Tudo com o objetivo, claro, de faturar alto por dois meses. E, diga-se de passagem, tal estratégia funciona; pois se é uma coisa que os japoneses modernos adoram copiar é o consumismo norte-americano: aumentando assim os lucros das lojas entre o Halloween e o Natal.
Quanto ao espírito cristão? Quase nenhum. E o que vou escrever agora, ainda que chocante, é uma realidade no país: no dia vinte e quatro de dezembro, é mais fácil encontrar um casal de japoneses nos inúmeros motéis (aqui chamados de “love hotels”) do que nas poucas igrejas existentes. Pois, sim, a véspera do Natal, particularmente para os jovens japoneses, é apenas uma espécie de “São Valentim” antecipado (o correspondente ao nosso brasileiro “Dia dos Namorados”). As famílias reúnem-se mais é no Ano-Novo: este último, sim, considerado no Japão uma comemoração mais especial que o Natal.
Certa vez, falando do Natal japonês a uma amiga no Brasil, esta, revoltando-se, disse-me com uma pitada de intolerância cultural: “Como você aguenta viver em um país que não é cristão? Que trata o Natal como uma data sem importância?”.
Foi quando contra-argumentei: “E por que não viveria? Afinal de contas, religioso ou não, um país que proporciona trabalho e dignidade a seus cidadãos já é para mim suficientemente abençoado!”.
Um Feliz Natal e um maravilhoso 2020 a todos!
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases). Em novembro de 2019, foi o vencedor, na Espanha, do 13º Concurso de Microcontos do Festival de Cine Terror de Molins.
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