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SUB-VERSÃO

No mundo ideal

Camila é acordada pontualmente às 8h pela governanta da família. Na sala, um café da manhã típico das novelas está a sua espera. Camila quase nunca faz essa primeira refeição do dia, diz não conseguir, coisa de adolescente... E lá ficam estáticas, posicionados no mesmíssimo lugar onde foram cuidadosamente colocados pelos empregados da cozinha, o bolo de iogurte, as frutas, o leite, o café, os croissants. Camila os olha com o desdém de quem não sente vontade, talvez porque tenha tudo aquilo de quem alguém poderia sentir vontade assim tão fácil, tão ao seu alcance, que não há novidade alguma, e o café da manhã só segue existindo por exigência do pai. Ela toma meio copo de suco de laranja e, depois de pedir licença, deixa a mesa.

De volta à suíte, a adolescente escova os dentes, arruma os cabelos, se maquia. Sim, esse último hábito é sagrado. E só então, posiciona-se em frente ao seu notebook para assistir às aulas on-line.

Mariana acorda assustada com o despertador, sabe que não pode se atrasar, precisa levantar logo e assumir o posto de cuidadora dos irmãos mais novos. A mãe já saíra para o trabalho há horas, aliás, elas quase não se veem, visto que a mãe só retorna tarde da noite. 

Mariana passa um café e come pão, pão dormido que a mãe trouxe ontem na noite anterior. Esse é seu banquete, ela adora pão com manteiga, a mãe sabe disso, e mesmo exausta, sempre faz questão de passar na padaria na volta do trabalho para garantir o café da filha.

Mariana escova os dentes, já com o menorzinho dos irmãos no colo; choroso, ele exige sua mamadeira. Mal consegue pentear os cabelos, o menino está agitado e brinca de tirar o pente das mãos dela.

Os maiores já estão despertando, e lá vai Mariana ajudá-los com o café. Mas o dia passa rápido, é preciso pensar também no almoço e dar uma limpada na casa.

Mariana sente falta de sua rotina na escola, boa aluna que sempre foi. Seus irmãos também, mas o que fazer se agora, por conta da pandemia, estão afastados? O único aparelho celular da casa pertence à mãe, que o carrega consigo pro caso de alguma emergência. Só à noite, tarde já, quando retorna, é que Mariana pode tentar dar uma olhada nos conteúdos postados pelos seus professores, e isso quando a internet, temperamental que só, resolve colaborar.

No mundo ideal, todos sem distinção podem acessar os meios tecnológicos e, assim, construir um aprendizado sólido, mesmo em meio a uma pandemia. 

No mundo ideal, todos sem distinção têm aparelhos celulares com acesso ilimitado à internet, e tablets e notebooks...

No mundo ideal, todos os pais podem acompanhar seus filhos diariamente na realização de suas atividades remotas, porque podem ficar em casa, e não precisam se expor ao vírus.

No mundo ideal, esse texto jamais seria escrito, porque no mundo ideal, do outro lado da tela desse notebook ultrapassado, cuja câmera nem funciona mais, não haveria uma professora apaixonada por sua profissão e, por isso mesmo, absolutamente frustrada por constatar, agora de forma mais escancarada que nunca, que a educação nesse país nunca foi para todos. 

No mundo ideal, a pandemia não comprometeria em nada os estudos dos alunos dessa professora, porque todos eles, assim como a Camila do início desse texto, teriam comida no prato, casa, celular, computador, internet...

No mundo ideal, pasmem, todos os alunos vão à escola com o único objetivo de estudar, e não porque não têm o que comer em casa!

A pandemia não trouxe novos problemas para a educação, ela apenas escancarou aqueles que a acompanham desde seus primórdios, e que são a causa de seu “fracasso”. 

E por favor, não me julguem uma professora amarga ou avessa às novidades tecnológicas. Não, eu só estou farta de repetir sempre o mesmo faz-de-conta. A quem estamos enganando, afinal? A quem desejamos agradar?

O ideal, ah, o ideal... Ele devia nos servir de incentivo, a fim de que melhorássemos nossa prática agora, hoje, com o cenário e os atores de que dispomos, com a realidade de que dispomos. 

Oferecer o ideal a quem não dispõe nem mesmo do básico, de tão leviano, chega a ser criminoso. 

Perdoem-me o desabafo. Sou só uma professora morrendo de saudade de cada um de seus alunos, seus alunos reais, com suas vidas e realidades, por quem ela nutre um respeito tão grande, que esse se transforma em indignação, quando os vê de alguma forma negligenciados. Sim, porque oferecer o ideal é privilegiar apenas alguns e marginalizar os outros. E meu ideal de educação... pois é, eu também tenho um ideal de educação: é uma educação real para todos.

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