“Ele vinha todo dia aqui para saber se havíamos achado a filha dele”, disse o porta-voz do Corpo de Bombeiros, que ainda trabalha exaustivamente naquilo que sobrou de Brumadinho. Uma cidade afogada em lama, um coração de pai que não se permite sufocar por essa mesma lama.
Um choro engasgado em minha garganta, desde o dia em que vi na TV aquilo que muitos insistem em chamar de tragédia, mas que eu acho justo chamar de crime.
Estava nas Gerais quando toda aquela lama desabou sobre Brumadinho e também sobre minha alma. Eu que amo Minas e sua gente, senti-me um pouco presa naquele lamaçal também. Meu coração mineiro (Minas é muito mais que um estado geográfico, um estado de espírito) sentiu-se apertado.
E é por isso que posso imaginar um pouco do que seja a angústia daquele pai. A esperança insana que o movia todos os dias, religiosamente ao local de busca, a busca perene de que só o amor é capaz.
Essa semana, finalmente, o coração daquele pai recebeu a sentença pela qual tanto esperava e temia.
E eu chorei junto com ele, ao vê-lo novamente na TV. Seu semblante cansado era a tradução da espera, da renúncia que esperar exige, da dor que o fim da espera traz novamente consigo.
Mas porque o amor é paciente, aquele senhor de cabelos brancos cacheados suportou a espera por seu tesouro, que agora finalmente voltará ao lar.
Foi assim que o tenente se referiu a mais esse momento, a devolução de um tesouro a sua família.
Minas é mesmo a terra das pedras preciosas, tesouros de carne e osso, paixão e sonhos, e me deixa absolutamente furiosa que a Vale os tenha aprisionado em sua lama.
Ainda faltam oito pessoas a serem encontradas, oito tesouros ainda não retornaram aos seus.
Mas essa semana o coração de um pai foi liberto, não da dor, não da saudade, não da tristeza, mas da espera.
A um mineiro, finalmente foi devolvido seu tesouro. As máquinas romperam sua prisão e ela pôde voltar para aqueles que a amam. Sim, a amam, porque amar não é verbo que se conjugue no passado.
O amor é paciente.
“Ele vinha todo dia aqui para saber se havíamos achado a filha dele”.
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