Na mais recente Bienal do Rio, o prefeito da cidade, com saudades da Inquisição, ameaçou apreender livros que ele considerava “impróprios” e, indo mais além, até cancelar todo o evento. FELIZMENTE, ele não teve êxito em nenhum dos objetivos. E escrevo FELIZMENTE assim mesmo, com letras garrafais: pois, afinal, no Brasil, um país em que tantas livrarias têm fechado as portas, ameaças como essa são, para dizer o mínimo, um desserviço à sociedade. Como se já não fosse difícil a vida de editores e escritores em nossa pátria amada... Tendo de fazer mágicas para vender seus exemplares.
Claro que essa crise do livro impresso é mundial – ainda mais em tempos de informações fragmentadas via internet –; porém, após ver situações como a ocorrida na Bienal carioca, alegro-me de que ainda há lugares que valorizam a Literatura, graças principalmente a uma maior preocupação com a Educação. É o caso do Japão.
Sim, aqui também se vive a epidemia dos iPhones e afins. E isso verifico nos trens diariamente: pessoas de todas as idades, com os olhos grudados na tela de um celular. Mas, de repente, deparo-me com dois ou três desses passageiros que, largando por um instante o aparelho, abrem as bolsas e tiram – abracadabra – um livro! Uma cena que ainda é mais comum no primeiro vagão, no qual é proibido o uso de celulares.
E, presenciando cotidianamente tal cena, confesso celebrar o fato de morar em um país onde ainda se inauguram livrarias, e bibliotecas são bastante frequentadas – próximo a minha casa, há, por exemplo, além de pequenas livrarias, duas bibliotecas (uma, inclusive, com alguns livros em português). Na verdade, em Tóquio, há mesmo todo um bairro (que chamam aqui de “distrito”) conhecido pela grande concentração de livrarias. É Jimbochou: passeio obrigatório quando minha esposa e eu vamos ao centro da capital japonesa.
Pois, realmente, para qualquer fã da boa e velha forma de leitura, é um deleite percorrer as vielas desse distrito. Principalmente para visitar-se a enorme quantidade de sebos existentes; nos quais podemos encontrar até mesmo alguns livros em Inglês (o idioma com que a maior parte dos estrangeiros se viram no Japão). E claro: há também livrarias maiores e mais modernas. Enfim, livros para todos os gostos. E o que é melhor: baratos!
Em Jimbochou, aliás, jamais me deparei com livrarias que estivessem fechando as portas. É certo que o fato de estarem próximas a universidades – como as de Hosei e Meiji – também contribui para a manutenção desses estabelecimentos. Mas não é somente esse o motivo. É, sobretudo, a valorização da leitura que, desde o ensino fundamental, proporciona as condições necessárias para essa bonita história de amor dos japoneses com os livros. Pelo visto, FELIZMENTE, uma história ainda sem fim.
EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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