O Brasil, a Copa e o Underground

Este novo ano que se inicia promete ser histórico por diversos eventos do qual o Brasil será palco. Teremos festivais de música, a Copa do Mundo entre junho e julho, e o evento mais importante, com certeza, será a eleição em outubro, quando escolheremos nosso presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais.

Aí, o leitor dessa coluna, que sempre lê artigos sobre cultura pop ou underground, deve se perguntar: “mas o que tenho a ver com isto?”. A resposta é: tudo!!! Temos atualmente no Brasil uma cena de música independente ainda bastante restrita para muitas pessoas, não por causa dos organizadores de eventos ou bandas, mas sim devido ao próprio público, que ainda não se dá conta da riqueza que temos tão perto.

E o que os eventos programados para este ano têm a ver com nossa cena musical? Em 2014, nosso país será o centro da atenção mundial, pois, queiram ou não, futebol rende notícia, move paixões e muito dinheiro, além de material para imprensa, seja ela escrita, falada, televisionada ou pela net. Imagine a quantidade de pessoas de outros países que teremos por aqui. Imagine quantas pessoas que amam futebol, mas também gostam de música e pesquisam a cena independente ou underground de cada país.

Os turistas que vêm nos visitar podem se interessar em conhecer nossa cena musical e saber qual o comportamento das bandas, das rádios, dos zines e de toda cena. Eles podem querer levar o que encontrarem aqui para disseminar em seus países, estados, condados talvez, cidades e bairros. Ainda bem que, atualmente, as bandas brasileiras que entram no mercado independente entendem que nada “cai do céu” e, por isso, batalham seus espaços e fazem de tudo para que os eventos ocorram e novos espaços para grupos autorais apareçam.

Em nossa região, algumas pessoas tem se mobilizado para isso. Exemplos não faltam. No último dia 18, estive junto com um amigo na Casa 30, em Bragança Paulista, onde foram realizadas duas apresentações, com destaque para a Leptospirose, banda bragantina que, além de comemorar 13 anos, acaba de lançar seu quarto álbum, “Tatuagem de Coqueiro”. Eles fizeram uma ótima apresentação e a Casa 30 faz jus ao seu nome, pois as bandas tocam em uma sala, a cerveja é vendida na cozinha e a espera ocorre na calçada. Mas o local é todo decorado e as artes a deixam muito aconchegante.

Além deste espaço alternativo em Bragança, outro ponto incomum é o “Quinta do Gordo”, em Campinas, onde as bandas apresentam-se na lavanderia de uma casa, o bar funciona em uma edícula nos fundos e o público fica no quintal e respeita o espaço delimitado para uma horta natural. Ainda em casas feitas para moradia, mas que ultimamente têm servido para shows, existe uma no Guarujá, onde Phábiño Lopes, guitarrista da banda A Phoyce, agita a “Caverna da Punkeragem” todo final de semana.

A cena underground no Brasil ainda engatinha, mas muitos estão anos luz à frente, devido a garra, ousadia e vontade de fazer algo ocorrer em nosso país. Os lugares citados podem ser visitados por algum maluco que desembarque em algum de nossos aeroportos e procure conhecer um país que muitos ainda não conhecem. Muitas de nossas bandas que tocam neste espaço, além de se apresentarem para cerca de 30, 40 pessoas em ambientes pequenos e fechados como estes, conseguem realizar turnê não apenas pelo Brasil, mas também pela América do Sul e Central, Japão, Europa, entre outras praças. Essas mesmas bandas gravam CDs, DVDs, clipes, desenham suas camisetas e elas mesmas as comercializam.

Enquanto muitos “batalham” por dias melhores, existe uma maioria que não está nem aí e só quer saber do que está na mídia. Aí que entra a importância de votar de maneira correta em outubro, para nos livrarmos dos péssimos governantes que temos atualmente e dar uma chance para novos pensamentos e pessoas, principalmente para aquelas que realmente se preocupam conosco, que atualmente são bem poucas.

A eleição de pessoas engajadas com causas culturais pode ser importante, pois muitos artistas que hoje vivem à margem de nossa sociedade podem finalmente viver de sua arte e poder criativo. Os espaços estão sendo desbravados, agora precisamos pôr nossa mente para trabalhar e pensar qual futuro queremos. Quem sabe um visitante, ou turista, como queiram, que venha para acompanhar a Copa, possa nos ajudar e fomentar uma cena que ainda é muito restrita.

Ivan Gomes, 35, é editor do fanzine/blog Canibal Vegetariano e também apresentador e produtor do programa A HORA DO CANIBAL

 

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