“Eu nasci pobre, mas não nasci otário, eu é que não caio no Conto do Vigário...”, canta Charlie Brown Jr, banda de rock da cidade de Santos, formada na década de noventa, cujos sucessos são tocados Brasil afora até hoje.
Conta a história que, no século XVIII, em Ouro Preto, dois vigários queriam ter a mesma imagem de Nossa Senhora em suas igrejas. Sem acordo, um dos padres então propôs amarrar a imagem em um burro, que estava no meio das duas igrejas. A depender da direção que o burro tomasse, seria então o local onde a santa ficaria. Ocorre que o burro pertencia à Igreja do padre que propôs essa ideia e qual foi a surpresa? Foi pra lá que o burro se dirigiu!
Esta é uma das versões mais reproduzidas para narrar o “Conto do Vigário”. A história do padre vigarista que ludibriou seu colega para ter em sua igreja a imagem da santa desejada.
E como tem vigarista por aí; como tem pessoas que caem no Conto do Vigário... Não faltam exemplos em nosso dia a dia!
A antiga prática ou esquemas de pirâmides, por exemplo, que prometem retornos financeiros rápidos, fáceis e em volumes elevados, segue presente em nosso cotidiano. Ação que continua seduzindo pessoas a investir seus tostões em aplicações irreais, muitas vezes economias de uma vida inteira, atraindo mais e mais pessoas, até o esquema quebrar e todos perderem tudo, menos o dono da pirâmide...
Nas redes sociais – onde os brasileiros têm destacado protagonismo – não faltam opções de cursos, palestras, dicas e promessas que levem ao sucesso do dia pra noite, a resolução fácil de problemas complexos e receitas milagrosas para se tornar um milionário... Basta comprá-los! Tem dietas que prometem consideráveis perdas de peso em pouquíssimo tempo; táticas de vendas que asseguram lucros exorbitantes em uma semana; cálculos personalizados que levem aos números da sorte dos bilhetes de loteria etc., etc., etc...
Vigaristas sem batinas, que usam de uma oratória sedutora para convencer seus seguidores que em suas mãos está a preciosa fórmula do sucesso e da riqueza.
A ilusão de acesso fácil ao dinheiro, à fama e à solução de problemas movimentam um universo paralelo, onde a narrativa inflamada e veemente de influenciadores e coaches (pessoas anônimas e famosas) fascinam seus seguidores, que parecem hipnotizados, alheios a qualquer criticidade ou senso de discernimento. O depoimento de histórias de sucesso coroa qualquer tentativa de desconfiança que possa se fazer presente. E nesse jogo da malandragem, quem tem boa lábia vai longe!
É compreensível – e não aceitável – que faça sucesso a retórica de quem sai falando qualquer coisa sobre qualquer assunto – por vezes sem nenhuma formação – num país onde a ciência e a educação são depreciadas; onde parece meio fora de moda ficar horas em leituras e/ou experimentos acadêmicos e científicos; onde uma pitada de inverdade se mistura a uma porção de palavras difíceis, com toques de preceitos religiosos e em tom inflamado se vai ao encontro do que se deseja ouvir; onde seres iluminados e escolhidos tiveram acesso a fórmulas perfeitas e secretas, que podem resolver todos os problemas existentes com apenas alguns cliques – só é necessário decidir se o pagamento será no crédito ou no pix.
E se não der certo, você só pode ter feito algo errado, não deve ter seguido os passos exatamente orientados, ou talvez não acumulou a energia necessária que levaria ao desejo comprado...
Não há dinheiro fácil e que brota aos montes, assim como não há fórmulas mágicas de sucesso. Dizer isso é necessário, ainda que seja um pingo no oceano. Uma educação crítica, reflexiva, transformadora pode contribuir no entendimento que ficar rico passa pela exploração da mão de obra, destruição do ecossistema, manutenção de privilégios...; e que fazer esses cursinhos da internet pra ficar rico ou ter sucesso é mais um Conto do Vigário.
Enquanto isso segue a música “eu nasci pobre, mas não nasci otário...”.

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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