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Crônicas de um Sol Nascente

O menino, a garça... E Godzilla!

O Oscar 2024, apesar dos escorregões típicos da cerimônia, dessa vez, pode-se dizer, foi justo em suas premiações, consagrando a Christopher Nolan e sua obra-prima “Oppenheimer”. Sim, cinema de qualidade no mais alto lugar do pódio como há muito tempo não se via na maior festa do Cinema. Ouro para um gigante, enfim.

E falando em gigantes cinematográficos, o Japão vibrou com as vitórias de dois de seus maiores filhos, a saber: Hayao Miyazaki... e Godzilla.

Miyazaki, aliás, já era um nome conhecidíssimo pela Academia de Hollywood, tendo sido premiado em 2003 com o sensível “A Viagem de Chihiro”. Anos mais tarde, em 2015, também recebeu um Oscar Honorário, ou seja, pelo conjunto de sua obra – que, diga-se de passagem, é realmente espetacular. Disney, que nada! Animação de qualidade quem faz mesmo é o Estúdio Ghibli, a casa de Miyazaki. O detalhe, o preciosismo em cada traço... coisa que o Estúdio do Mickey tenta, tenta, e não consegue. De modo que só resta mesmo aos americanos aplaudirem a genialidade do artista japonês. Como o fizeram novamente neste ano premiando “O Menino e a Garça”, considerada a obra mais pessoal de Miyazaki, tendo, de fato, fortes traços autobiográficos (por exemplo, tal qual o pai do Mahito do filme, o de Miyazaki também trabalhou para a indústria aeronáutica).

Agora, só não esperem a presença de Miyazaki para receber prêmios seja onde for. Sua prioridade é o trabalho, sem tempo para festividades ou coisas do tipo. Para terem uma ideia, quem trabalha em um de seus filmes literalmente não tem férias até que o projeto seja finalizado: o que significa dia e noite à disposição do estúdio. Uma dedicação sobre-humana que, como podem ver, ao final vale a pena, posto que cada animação de Miyazaki torna-se mesmo um espetáculo imperdível.

Com um histórico desses, claro, mais uma premiação de Hayao Miyazaki por Hollywood já era algo, pode-se dizer assim, até esperado por muitos japoneses que acompanhavam a festa do Oscar. A surpresa e a “explosão de emoção” mesmo viria depois, quando os gêmeos Arnold Scharzenegger e Danny DeVito anunciaram o Oscar de Efeitos Visuais para “Godzilla Minus One”. Como sabem, o adorável gigante anfíbio, nascido de experiências nucleares, é um símbolo do cinema nipônico. De modo que, quando a equipe do diretor Takashi Yamazaki subiu para receber o prêmio, todo o país se emocionou. Afinal de contas, os japoneses cresceram vendo Godzilla arrasar cidades e lutar contra a “maldade humana” (não necessariamente nessa ordem).

Godzilla, aliás, apareceu pela primeira vez nos cinemas em 1954 – menos de uma década, portanto, das famigeradas bombas de Hiroshima e Nagasaki. Interessante, portanto, ver que, setenta anos depois, Godzilla tenha sido premiado na mesma noite de “Oppenheimer”, filme a respeito do pai da bomba atômica. Como se o Oscar tentasse passar, com a premiação de ambos os filmes, algum tipo de mensagem pacifista. Mensagem esta que, vinda dos xerifes do mundo, pode significar muita coisa: inclusive, absolutamente nada!

De todos os modos, Godzilla realmente merecia essa consagração em Hollywood. Tanto que, também emocionado, já estou aqui na torcida por mais um triunfo japonês no Oscar 2025. Algo do tipo: “Godzilla vs. Donald Trump”. E vocês? Em qual dos monstros apostam?

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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