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Crônicas de um Sol Nascente

O POVO E AS GUERRAS

Em um dos finais mais brilhantes da história do cinema, um oficial britânico, ao testemunhar a morte do personagem de Alec Guinness – e a simultânea explosão da ponte construída, em um esforço conjunto, pelos exércitos inglês e japonês –, sentencia: “Madness! Madness! (Loucura! Loucura!)”. Estou falando, é claro, da obra-prima A Ponte do Rio Kwai, de 1957.
Pois toda guerra é isto mesmo: uma insanidade. E quem consegue ver algo de nobre na matança generalizada que ocorre sempre em nome de bandeiras, territórios e poder — desculpem a sinceridade — só pode ter altos níveis de psicopatia. E não me venham com a conversa fiada de que, para o crescimento de uma nação, sacrifícios são necessários. Toda guerra é errada, e ponto final. O resto é balela para encher ainda mais os bolsos dos ricos.

Por exemplo, há alguns dias visitamos o Shitamachi Museum (literalmente: “o museu do centro da cidade”), localizado no Parque de Ueno, em Tóquio. O museu é pequeno, mas tem um acervo riquíssimo a respeito da vida da população japonesa durante as duas grandes guerras que enfrentaram. De modo que, certo dia, levamos o Endi para conhecer um pouco mais a respeito da história de seu país.
E, realmente, a visita ao local valeu a pena — não somente para o pequeno, mas para toda a família.

Já na entrada, tivemos a oportunidade de visitar uma típica residência japonesa durante a Segunda Guerra. E vimos ali, entre outras relíquias, o famoso “telefone preto” – usado também em residências brasileiras na mesma época. Lembram-se dele?
Pois é... Para a geração de hoje, acostumada à tecnologia, a visão de tal “coisa velha usada para se comunicar” deve mesmo parecer hilária. Tanto que o meu filho indagou-me para que servia aquilo. Respondi, claro, que se tratava de um telefone. E ele:
— Serve para conversar e o que mais?
E eu:
— Só para conversar mesmo.
Então ele começou a rir. E eu, de minha parte, desistindo, resolvi levá-lo para outro setor do museu.

Foi então que vimos as fotos de como vivia o povo japonês durante a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais. E, lá, uma das histórias que mais me chamou a atenção foi a dos esforços de guerra — por exemplo, a invasão das casas por soldados japoneses para confiscar todo tipo de metal, visando à fabricação de armas. Isso sem falar dos horários desumanos estabelecidos para o treinamento da população japonesa, forçada a começar sua jornada às três da manhã (e isso alternando entre campos e fábricas), numa espécie de escravidão oficializada pelo Imperador.
Muitos, claro, pereciam durante esses treinamentos forçados. A bisavó de minha esposa, por exemplo, faleceu nessa época, vitimada pelo cansaço. Morreu enquanto corria carregando pesados baldes de água... e deixando órfãs nada menos que SEIS crianças.

Por isso tudo, repito: toda guerra é uma sucessão de tristezas. Incitá-las, pois, é pura e simples crueldade, que deve ser punida.
E, para concluir, digo mais: os políticos e magnatas que geram tais guerras — sempre em nome de seus interesses — deveriam ser os primeiros a ir para os campos de batalha, posicionados já na linha de frente. Aí, sim, finalmente, as guerras começariam a fazer um certo sentido.


EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas – Brasil), em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em mais de quinhentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2024, seu livro obteve o Primeiro Lugar no Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) da UBE-RJ. Também em 2024, foi o roteirista vencedor do WriteMovies Script Pitch Contest, nos Estados Unidos. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (ASES).

 

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