Nossa alma está sempre retornando para aquilo com que se identifica ou ainda para aquilo que a faz pulsar e confere sentido à sua existência. É por isso que, a despeito de opiniões várias, eu celebro meu retorno à sala de aula na próxima segunda-feira.
E não estou sendo hipócrita quando afirmo isso. Sou uma professora ciente de sua função, há tempos que abandonei o idealismo besta e assumi minha vocação de professar minha crença no poder transformador da educação. E confesso, é perturbador ser professor em nosso país, e isso devido ao desrespeito com que se trata a classe, que não é de fato uma classe há muito tempo. Mas hoje não vou me ater a essa faceta da perturbação. Quero dedicar minhas palavras a um outro tipo de perturbação que assombra a vida dos docentes. E essa perturbação é o que mais me fascina e motiva a persistir professando a educação.
Refiro-me à perturbação do encontro com o outro. Acostumados como estamos ao individualismo feroz, ensinado desde o ventre materno, encontramos dificuldades em encontrarmo-nos com o outro, em reconhecer nele nossas próprias fraquezas e hostilidades. E na sala de aula, esse encontro é inevitável.
O professor, lembrem-se, é um ser humano, e um ser humano em contato direto com outros seres humanos, ambos com suas próprias cargas de emoções e experiências e conhecimentos, que, podem e devem ser compartilhados ao longo do ano letivo, ao longo da vida!
Mas encontrar-se no outro, é tarefa dificílima. E a sala de aula que voltarei a frequentar segunda-feira, é que me ensina isso, nela eu me aprimoro enquanto ser humano, à medida que encontro e me encontro em outros seres igualmente humanos.
Que desafio empolgante e provocador!
Distante das mirabolantes e importadas teorias, que, alguns de nós, cansados do desafio de professar a educação transformadora, assumem como verdade absoluta, levarei comigo para a sala de aula na segunda-feira a certeza de que, mais uma vez, e graças ao Eterno por isso, estarei diante do desafio de tocar outras almas, muitas delas, terrivelmente arredias, fruto de uma educação familiar decadente aliada a algumas características pessoais, outras, mais dóceis, mais propensas à interação, mas todas, sem exceção, humanas.
E estou convicta de que, mais uma vez, como ao longo de alguns anos já, terei de lidar com sabedoria e muito, mas muito jogo de cintura, com a aventura que é ser professor.
E entre Orações Subordinadas e Classes de Palavras e Gêneros Textuais, serei, mais uma vez, apenas uma professora, que, pasmem, ainda acredita naquilo que professa, sem ilusões pueris, sem hipocrisia e sem me permitir vencer pela indiferença.
Que a vida nos sirva de professora, que os dias sejam todos de aprendizado, que saibamos tocar almas, sem maculá-las, que o outro se reconheça em nós e que tenhamos todos, alunos, pais, professores, gestores educacionais, funcionários da educação, um excelente retorno às aulas!
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