Cristo vai nascer hoje, dizia o padre na catedral suntuosa, em tom solene. Cristo vai morrer hoje, dizia o incrédulo, a quem a história do Salvador nunca sequer interessou ou comoveu.
Cristo vai renascer hoje, dizia a beata, absolutamente convicta de que essa sua pregação e certeza amoleceriam até mesmo os corações mais endurecidos.
É Natal! Gritava o menino mimado, a quem nunca faltou presentes e mesa farta.
Queria estar com minha família, lamentava-se a jovem operadora de caixa no supermercado, com seus corredores lotados de gente e vazios de qualquer sinal de empatia.
Esse está sendo o melhor natal dos últimos anos, alegrava-se o lojista, já que o hábito de presentear nunca se perdera, e tornara-se ainda mais vivo após o término do período mais intenso da pandemia.
É Natal, e ela não está aqui comigo, pranteava o senhor de cabelos grisalhos, sentando à mesa sozinho, defronte à última foto que fizera da amada esposa.
Esse bando de porcos capitalistas! O Natal é só mais uma jogada deles, dizia o adolescente anarquista, no auge de sua rebeldia, que, descobriria mais tarde seria sufocada pela dureza da vida.
O barulho de toda essa gente, quer seja celebrando ou maldizendo a data deixava o bebê agitado na caixa. Tanto, que não suportou, e lançou ao mundo o choro mais agudo que já ouvira. Assim, conseguiu fazer notada sua delicada presença.
Envolto apenas em uma mantinha, o que não era suficiente para mantê-lo aquecido, já que dezembro agora mais parece junho, ele gritou, exigindo que o notassem.
O barulho da cidade ensimesmada abafou seu pranto, que se somava a tantos outros, talvez mais contidos, choros engasgados, choros regados a vinho, que sim, entorpece, mas não o suficiente para arrancar do coração a tristeza de quem perdeu alguém a quem amava.
Seria preciso mesmo muita sensibilidade e observação, seria preciso ouvidos e olhos treinados para notar aquela existência tão frágil e pequenina, em meio ao caos da cidade grande.
Mas por que Ele também é grande e se fez pequeno, e usa dos seus pequenos para proclamar a insanidade de seu amor, aquele menininho foi ouvido.
Maria o havia deixado, propositalmente nos arredores de uma igreja, onde um padre muitíssimo caridoso atuava em ações sociais junto a moradores de rua. Estava envergonhada, com medo e com frio. O remorso já tomava conta de sua alma, não por tê-lo deixado lá, mas por não ter tido como oferecer-lhe uma vida minimamente digna, já que ela também não a tinha.
Mas no fundo, ela sabia que ele estaria seguro ali. José a havia abandonado grávida, como só fazem os homens covardes. E por que ela era mulher e mãe e por isso mesmo a personificação da coragem, decidira entregar seu rebento aos cuidados do Altíssimo.
Jesus, como foi chamado mais tarde o padre que o encontrou, trazia consigo o verdadeiro significado do Natal. Por que sim, e a despeito de tudo o que supomos, o Natal nada mais é que amor. Amor insano, amor corajoso, amor...
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