O tacho de figos

Desde criança o Natal tem pra mim um cheiro, doce, peculiar, convidativo, um cheiro que conclama à celebração. É o cheiro do doce de figo.

Ah... enquanto escrevo, posso senti-lo e já faz alguns dias que minha casa foi tomada por ele. Acreditem, é o aroma do Natal!

Confesso que espero ansiosamente todo ano por encontrá-los, lindos, de um verde esperançoso, vistosos, expostos nas bancas da feira livre de nossa cidade. Singelos, pequeninos, são sim, pra mim, símbolos da doçura do Natal, doces e singelos, tal qual o pequenino na manjedoura.

E quando, já em casa, os corto, ferindo-lhes a pele, com a marca da cruz santíssima, eles choram, e até nisso conseguem expressar beleza e eu me lembro de ser criança e ajudar minha mãe nessa tarefa de preparar meus adorados figos para a panela.

Estando assim, ainda crus, já exalam uma fragrância maravilhosa. E a casa já começa a ganhar ares de celebração.

Mas é quando eles vão para o tacho é que esse perfume quase sacro se intensifica. O fogo e o açúcar os tornam ainda mais cheirosos, ainda mais convidativos.

E esse cheiro se espalha pela casa, e é como se todos, todos sem exceção alguma, fossem convidados por ele, a mais uma vez, participar da celebração do Amor insano de Deus.

E é como se aos poucos, aqueles a quem há muito não vemos, aqueles a quem amamos e já partiram, é como se pouco a pouco fossem eles adentrando à nossa cozinha novamente, com sorrisos e lágrimas de saudade, atendendo ao convite irrecusável do tacho de figos no fogo.

Sim, eles vêm, sua presença se faz sentir enquanto o doce apura ao calor do fogo e das lembranças doces.

É como se, no Natal, estivéssemos todos juntos novamente, em volta do tacho de figos. Estamos, de fato, assim. O aniversariante é quem nos concede esse privilégio, de viver ainda que depois da morte.

Ele veio a encarnar-se para isso, e pasmem, o doce de figo me traz à memória esta santa verdade.

Estamos todos juntos no Amor dEle. Posso ainda agora senti-lo, enquanto mordisco, feliz, um figo ainda quente. Sua voz doce me adverte:

- Aninha, deixe ao menos esfriar... E sorri.

O Natal é mesmo o sorriso de Deus para esse mundo ranzinza. O tacho de figos degustados na presença daqueles a quem amamos!

Feliz Natal!!!

 

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