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SUB-VERSÃO

Olhos de estrela

Tem gente que tem olhos de estrela, já repararam? Olhos de um brilho tão forte e profundo, que chega a doer os olhos de quem os mira. Mas, afinal, não somos todos nós feitos de poeira de estrela? Nesses, a quem elas, as estrelas, deixaram uma cota um tanto maior de brilho, isso é muito evidente.

Ela era assim, uma menina doce, de olhos de estrelas. Doce e forte, diga-se de passagem, do tipo que não leva desaforo para casa, nem se cala diante de qualquer injustiça.

Tinha olhos grandes e brilhantes, e como eram bonitos. Lembro-me de que obviamente foram eles que mais me chamaram a atenção naquele dia em que a conheci. Mal sabia que por trás daqueles olhos hipnotizantes residia uma alma ainda mais brilhante e interessante. Uma alma que não cabia nesse mundo.

E quantas vezes desejei nunca tê-la conhecido... Que bobagem, se isto foi o que deu sentido a minha existência.

Ela não era fácil. Geniosa desde criança, mulher independente, de uma graça e um poder, que a faziam iluminar um ambiente inteiro quando nele adentrava. Linda! Diferente de todas as outras, porque a quis minha.

Aprendi a ler poesia com ela, porque ela gostava. Impressionante o quanto seus lindos olhos brilhavam ainda mais quando lia Drummond, ou cantarolava Chico. Dou graças a Deus até hoje pelo fato de os dois nunca terem se conhecido. Certeza que ela viraria sua musa e eu, reles mortal, seria descartado feito rima pobre.

Intensa, inteira, ela era assim. Apaixonei-me antes mesmo do primeiro beijo, entreguei os pontos logo depois dele, quando vi diante de mim o espetáculo daqueles olhos abrindo-se feito uma janela para o sol.

O sol morava nela, ainda que sua pele o rejeitasse um pouco. Era de uma brancura, que só se detinha um pouco quando corava. Sim, ela era do tipo que ainda corava vez ou outra. E nem preciso mencionar o quanto isso só aumentava sua graça natural.

Os anos nunca foram capazes de roubar-lhe a graça, talvez porque ela nunca tenha competido com eles, ela os viveu, com intensidade, com a alegria de uma menina que se encanta sempre e mais um pouco com uma nova descoberta. No auge de seus 86 anos, ela ainda era minha menina.

Teimosa feito ela só, quis comer doce de figo, afinal, aproximava-se o Natal, e esse era seu doce predileto. Não satisfeita, quis acrescentar creme de leite. É assim que eu gosto, querido, você sabe.

Eu sei, eu sempre soube que ela não cederia nem mesmo em face da chegada da visitante malquista. 

Por incrível que pareça, quando ela chegou, a encontrou linda, a brancura da pele, à qual se adicionaram os sinais do tempo, só fazia ressaltar o brilho dos olhos dos quais fui servo por toda vida. 

Obrigada, querido. Ela disse, entregando-me a taça já vazia. E olhou para a porta do quarto. Ela a viu. Sim, aqueles olhos de estrela eram capazes de enxergar além do que se pode ver. Ela a viu e, corajosa, como sempre fora, a encarou, antes de partir.

Partiu serena, doce e forte como sempre fora. Fiquei admirando a beleza da vida que ainda havia naqueles olhos, como se ela a tivesse acumulado ao longo dos anos e esta não pudesse simplesmente deixá-los agora. 

Vovô, ela precisa dormir. Vou fechar os olhinhos dela. Disse minha pequena estrelinha, mostrando-se mais conhecedora dos mistérios da vida e da morte que eu. 

Pode chorar, vovô, ela disse que queria que a gente chorasse, se lembra? Só não pode se esquecer de recuperar a alegria depois...

Aninha, você tem os olhos da vovó, minha pequena! Disse entre soluços. Ao que ela, doce e forte, sagaz e certeira como a avó, respondeu: Eu sei, vovô. Ela me disse isso também. Ah, e disse mais uma coisa. O que, querida? Que agora eu sou a sua estrela!

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