Cinco da manhã, despertador toca. O corpo estirado na cama pede por mais cinco minutos de lambuja, só cinco. Cinco minutos atrasam o dia todo. O dia todo é todo trabalho e o ponto não sabe esperar. Cinco minutos de atraso e perde o vale-alimentação. O ponto não perdoa.
O ponto é o patrão “eletronificado”. Olhos fixos no tempo, no tempo que devia ser do operário, mas que é seu, posto que o compra e à sua vida pelo mísero salário de operário.
Levanta a contragosto, mas sem fazer barulho, que é pra deixar a morena dormir mais o pouquinho que pode. O dia dela começa mais tarde, mas é tão ou mais exaustivo que o dele.
Urina, lava o rosto, passa o café, amargo, feito a vida, que é pra despertar de vez. O pão engolido duma vez, quase que não lhe permite apreciar o sabor da manteiga. Manteiga de verdade, lá do interior, onde a mãe ainda mora.
Escova os dentes, uniforme, passos largos, olhos no relógio de pulso, relógio bonito, presente da morena.
Fábrica, apito, ponto, pronto, começa em ritmo alucinado mais um dia na vida do operário. Colega ao lado, não há tempo pra conversa, a peça não pode esperar. As peças se encaixam meticulosamente nessa engrenagem maldita chamada capitalismo. Não há folga, nem brecha entre elas que lhe permita sonhar.
Movimentos repetitivos, vida sempre repetida. A força do operário não cessa nunca de produzir patrões.
O patrão tudo observa, de longe, no recôndito de sua sala com ar condicionado. O calor infernal das telhas de brasilite só pros operários mesmo. A seus olhos, nada escapa. Em suas mãos, o suor alheio vira lucro.
Já é tarde, o suor já escorre-lhe pelo rosto. O corpo está cansado, a alma, exausta.
O apito que marca o fim do expediente soa triste, quase como uma melodia melancólica, quase tão cansada de ser quanto o operário.
A vontade de chegar em casa deixa o caminho mais longo. Mas ele chega. A morena já o está esperando no portão. Braços cansados no abraço. Chuveiro, amor feito às pressas, com força, como se quisesse com ele aplacar as dores todas do dia. Corpo relaxado, é... o amor ainda nos resta como a mais democrática das coisas.
Arroz, feijão, ovo frito. Amar dá fome. Trabalhar dá fome. E a cesta básica cada vez mais cara no mercado. É, não dá pra atrasar mesmo, de jeito nenhum. Imagina ficar sem o vale-alimentação...
Noite, TV, cansaço e desinformação. O cérebro cansado já nem codifica bem as informações. Gasolina mais cara a partir de amanhã. Pudera, nem carro tem. Depois reclamavam do governo anterior...
Os olhos já pesam, convidando a um sono profundo. A morena parece agitada. Que foi, amor?
É que eu tenho uma coisa pra te contar.
Fala!
Eu tô grávida!
Os olhos pesados do operário se enchem d’água.
Mas não é só isso. Eu contei pra patroa e ela me dispensou.
Dois pares de olhos cansados cheios d’água. Dois corações operários cheios de incertezas.
Feliz Dia do Trabalhador!
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