Ser professor no Brasil é ser atacado diariamente, seja pelas mazelas que atingem seus alunos, como a fome e a falta de perspectiva gerada por ela, seja pela mídia, seja pelas péssimas condições de trabalho que ainda assolam muitas localidades, seja pelo julgamento de um povo que não fez a lição de casa e que, portanto, nunca aprendeu a respeitar e a valorizar seus professores...
E em se tratando de um momento tão absurdamente assolador como este que estamos vivendo há mais de um ano, por conta de um vírus e da notória incompetência política em gerenciar a pandemia, haja vista que atingimos o número de quatrocentas mil vidas ceifadas, o professor não ia mesmo passar ileso das críticas infundadas, dos ataques odiosos e do desrespeito que já lhe é tão conhecido.
“O professor é o único que não quer voltar a trabalhar”, ouvi outro dia. E imediatamente me perguntei: quando é que o professor parou de trabalhar durante a pandemia?
De fato, temos trabalhado ainda mais, essa é a verdade. E trabalhado angustiados, acrescento, já que contamos com os entraves da falta de acesso aos meios de comunicação e à internet, reflexos da desigualdade que sempre dominou esse país.
Prefiro pensar que a pessoa que fez a afirmação acima a tenha feito na intenção de dizer “voltar a trabalhar presencialmente”, mas de fato não sei ao certo se isso minimiza a crítica.
O professor, e isso se deve a anos de um projeto bem sucedido de destruir a classe e desvalorizar a figura dele, é sempre desacreditado. Parece mesmo que ele é o único profissional que tem de provar, isso mesmo, provar que está trabalhando em casa. Há sempre um ar de desconfiança e dúvida envolvendo a figura daquele que devia ser o profissional mais respeitado desse país.
Professor tem privilégios, dizem. Duas férias anuais. Estão "trabalhando” em casa, vê se pode? O engraçado é que, mesmo apesar de todas as “regalias” que dizem ter os professores, poucos são aqueles que desejam o magistério... Por que será? Hoje, mais madura, experiente e consciente de minha função e de meu papel na sociedade, respondo a essas pessoas que sempre há concursos abertos para professor, e em diversas áreas, sendo assim, elas podem tornar-se privilegiadas também.
Chega a ser criminoso duvidar que o professor esteja trabalhando em casa... Obviamente que há maus profissionais em todas as áreas, mas nunca soa justo generalizar.
Afinal, não só estamos trabalhando, como estamos nos dedicando a fazê-lo da melhor forma e em condições absolutamente adversas, contando com o azar e com a falta de acesso à internet, e ainda por cima com a pressão da preocupação de gerar provas físicas, palpáveis de que esse trabalho sim, está sendo feito.
E digo mais, com uma saudade absurda, que chega a doer, de nossos alunos, do contato com eles, da troca de energia com eles, de ver o conhecimento sendo construído com eles e por meio deles.
Como eu queria voltar para a sala de aula... Cheia, repletas de seres humanos incrivelmente diferentes entre si, cada qual com sua bagagem de vida e de experiências que só fazem enriquecer a relação ensino-aprendizagem. E é porque os amo e os respeito que sei que esse não é o momento para esse retorno, não diante do caos que se tornou o “gerenciamento” da pandemia em nosso país. E temo não só por eles, mas por seus pais e avós, por seus responsáveis, por aqueles que os amam e os esperam todo dia voltar da escola.
Ando farta de ser julgada como “vagabunda”, sim, porque quando um companheiro meu é assim julgado, sinto-me ofendida também. Ando farta desse país que elegeu quem elegeu, e que, portanto, tem sua parcela de culpa nesse número aterrador de mortos.
Eu estou trabalhando, vou continuar trabalhando, a distância ou presencialmente, não importa, porque sou uma professora que ama a vocação para a qual foi chamada. Porque sim, a despeito de tudo, acredito que a educação ainda irá conduzir esse país a novos rumos, mais justos, mais igualitários, mais felizes!
0 Comentários