Mentiras e popularidade
Na última terça-feira, 22, o presidente Jair Bolsonaro discursou para a abertura da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas). Durante o discurso, ao menos 12 mentiras foram facilmente detectadas.
A 1ª mentira: “Desde o princípio, alertei, em meu país, que tínhamos dois problemas para resolver: o vírus e o desemprego, e que ambos deveriam ser tratados simultaneamente e com a mesma responsabilidade”.
MENTIRA! O presidente, desde o início, adotou um posicionamento negacionista em relação à pandemia, tendo chegado a afirmar, por mais de uma vez, que o coronavírus não passava de uma gripezinha. Até o momento, mais de 130 mil pessoas morreram.
A 2ª mentira: “Por decisão judicial, todas as medidas de isolamento e restrição de liberdade foram delegadas a cada um dos 27 governadores das unidades da Federação. Ao presidente, coube o envio de recursos e meios a todo o país”.
MENTIRA! O Supremo Tribunal Federal, única e tão somente, confirmou o que já estava previsto na Constituição Federal. A Constituição preconiza que os estados e os municípios têm autonomia para adotar medidas sanitárias conforme suas necessidades específicas. A decisão, contudo, jamais afastou a responsabilidade do governo federal de coordenar ações de âmbito nacional no combate ao coronavírus.
A 3ª mentira: “Nosso governo, de forma arrojada, implementou várias medidas econômicas que evitam o mal maior: concedeu auxílio emergencial em parcelas que somam aproximadamente mil dólares”.
MENTIRA! O governo de Jair Bolsonaro, incluindo o ministro da economia, Paulo Guedes, tentou IMPOR um auxílio emergencial de 200 reais mensais. O auxílio foi ajustado de 200 para 600 reais em razão do Congresso Nacional, cuja proposta foi dos partidos de esquerda e demais da oposição. Isso quer dizer que todo o auxílio pago até então está muito longe de atingir a quantia de mil dólares.
A 4ª mentira: “Nosso governo assistiu a mais de 200 mil famílias indígenas com produtos alimentícios e prevenção à Covid-19”.
MENTIRA! Bolsonaro VETOU os artigos que obrigavam o governo federal a fornecer água potável, material de higiene e cestas básicas às aldeias. Não satisfeito, PROIBIU o ingresso de equipes médicas do Médico Sem Fronteiras nas comunidades.
A 5ª mentira: “Não faltaram, nos hospitais, os meios para atender aos pacientes de Covid-19”.
MENTIRA! O governo federal foi ineficiente na compra e distribuição de materiais hospitalares, tais como máscaras e ventiladores mecânicos (respiradores).
A 6ª mentira: “O caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas. Os focos criminosos são combatidos com rigor e determinação”.
MENTIRA! A maioria esmagadora dos casos de incêndio na Amazônia e no Pantanal foram cometidos por grileiros. E isso se deu, principalmente, em razão do discurso bolsonarista que legitima os malfeitores, bem como pelo esvaziamento das políticas públicas de contenção do desmatamento. Todos sabem que os indígenas e os caboclos são as principais vítimas do desmatamento. É como culpar a onça pela falta de floresta.
A 7ª mentira: “No campo humanitário e dos direitos humanos, o Brasil vem sendo referência internacional”.
MENTIRA! É sabido, internacionalmente inclusive, que os direitos humanos no Brasil vêm sofrendo reiteradas violações. Há poucos meses, a Comissária de Direitos Humanos da ONU denunciou o aumento de violência policial, ataques a ativistas, líderes de comunidades e intensa repressão à imprensa.
Pois bem, as mentiras do presidente não pararam por aqui, pois foram bem mais do que sete. Seria preciso um espaço ao menos três vezes maior do que este que me é concedido por este honrado jornal.
É espantoso que os jornais tenham noticiado ultimamente um aumento na popularidade do presidente. O dito aumento está diretamente ligado ao auxílio emergencial. Mas como é sabido, o auxílio de 600 reais não foi ideia do presidente, tampouco do ministro Paulo Guedes, pois estes tentaram impor o valor irrisório de 200 reais.
Assim sendo, o aumento da popularidade do presidente Bolsonaro não se justifica, a não ser pela desinformação, pelas mentiras constantes por ele proferidas aos quatro cantos do país com o auxílio dos aparelhos de comunicação estatais. Mentiras que não podem ser desmascaradas por um povo que carece de cultura, de educação e de consciência política.
São tempos sombrios, repletos de ódio, de intolerância, de inverdades institucionalizadas, de subserviência aos interesses norte-americanos, de autoritarismo velado, de incentivo ao desrespeito ao meio ambiente, de negacionismo, de revisionismo e de violações constantes à Constituição Federal, deteriorando, progressivamente, o Estado Democrático de Direito.
Diante desse cenário escabroso construído em apenas dois anos de governo Bolsonaro, só nos resta resistir até as próximas eleições e batalhar duro para que a dicotomia política (esquerda-direita) não ofusque os sentidos dos eleitores na busca por um país socialmente justo, economicamente estável e que retome o rumo do progresso.
Régis Fernandes é advogado, professor e especialista em filosofia.
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