O brilho nos olhos dela... Ah, era como se de repente uma luz muitíssimo viva tivesse se apossado deles, deixando o verde ainda mais verde, verde-claro, claro-translúcido. Era nítido que ela havia alcançado um estado de graça, quase que um êxtase sobrenatural.
Aquela mulher, já de meia idade, tivera bem poucos momentos assim, é verdade. É impressionante como nosso cérebro costuma esquecer-se facilmente daquilo que nos provoca vida, gera paixão... E aquele claramente fora um desses momentos.
Quando saiu de casa naquela manhã igual a todas as outras, não supunha o que estava por acontecer. Talvez porque o cansaço tivesse já lhe roubado parte da esperança, talvez porque a rotina tivesse macerado seus sonhos de menina...
Mas, porque a menina que ainda vivia nela resistia bravamente, ela preparou-se para aquele momento. Sim, como sempre o fazia e apesar de todos os empecilhos travestidos de pessoas, sistema e dúvidas.
E porque a coragem nunca duvida, foi decidida a entregar-se, independentemente do que recebesse como retorno.
Era uma menina-mulher apaixonada. Sempre fora assim. O mesmo frio na barriga, aquela sensação de entusiasmo e algum receio. Como sempre fizera, seguiu em frente. Movida por seu entusiasmo, munida de sua paixão, ela foi. E falou tão apaixonadamente durante aquela aula, que foi tão bonito, mas tão bonito, que conseguiu conquistar mais alguns corações e algumas mentes para o talento do genial Chico Buarque de Holanda.
Sim, eles se permitiram o fascínio da poesia. Eram olhos e ouvidos atentos a cada verso, eram bocas sedentas por verbalizar metáforas, interpretações, suposições, pensamento crítico!
E não tinha como ser diferente, ela, uma mulher de trinta e sete anos, professora na mesma escola há quinze, sentiu-se novamente como aquela “menina” de vinte e um, idealista, apaixonada, crédula na educação e nas transformações de que só ela é capaz.
A cada resposta, que vinha espontaneamente daqueles cérebros adolescentes, fervilhantes de ideias e vida, seu olhar se iluminava mais e mais. Sim, eles são capazes de interpretar poesia, claro que são. Sim, eles leram magistralmente nada menos que Chico Buarque. Sim, neles ainda pulsa a mesma gana que pulsava naquela jovem professora.
E porque ela ainda acredita na educação, e porque ela continua apaixonada por poesia e por Chico Buarque e por seus alunos é que o olhar dela se iluminou daquela maneira. Na verdade, há quem diga que ela nunca perdeu esse brilho. Há quem suspeite que ele nunca a deixará. Não há quem duvide que ela nasceu para professar poesia.
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