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SUB-VERSÃO

Pilatos

“As mãos de Pilatos ficaram menos limpas depois que ele as lavou”

Carlos Drummond de Andrade

Seguindo as mais recentes orientações da Organização Mundial da Saúde, ao chegar em casa, lavou as mãos. Finalmente, um dia de folga. Lavou o corpo, lavou a alma. Comeu feito rei, se permitindo o tempo entre o mastigar e o deglutir. Ousou ir ao banheiro logo depois do almoço. Fez a cesta. Fez amor. Antes de dormir, maldisse o presidente, a peste, Deus e o Diabo. Dormiu o sono mais tranquilo e restaurador que já dormira.

No dia seguinte, às cinco da manhã, já estava de pé. O cheiro do café recém-passado envolvia toda a minúscula casa, que ele insistia em preferir chamar de lar. Mulher e filhos dormindo, naquela paz que só os homens de bom coração podem oferecer àqueles a quem amam. Tinham tão pouco, afinal, que não havia de ser amor o que lhes faltasse.

Pensou nos filhos sem poder ir à escola, e como isso era importante naquele momento, muito mais importante que qualquer matéria que se acumulasse nos cadernos dos meninos. Pensou também no quanto os amava e como não queria, de forma alguma perdê-los, fosse para o que fosse, o vírus, a miséria ou a crueldade do mundo.

Seus pensamentos só foram interrompidos pelo alarme do relógio, já era hora de ir pro ponto de ônibus lotado esperar a condução pro serviço. Não, ele não fora poupado do trabalho. Pobre nunca é. Como queria poder ficar em casa, resguardado pelas paredes sólidas do amor de sua família, sem ter que se expor dessa maneira a esse vírus mortal...

Não podia! Sentiu uma lágrima quente percorrer seu rosto, apoiado sobre o cotovelo, olhando a paisagem estranha pela janela do coletivo. Sentiu medo. Por ele e por aqueles a quem amava. Decidiu voltar. Não iria ao trabalho naquele dia. Mas e o patrão? E o salário no final do mês? E a vida? E se morresse? E se contaminasse a morena e os meninos?

No ponto seguinte, saltou do ônibus e no exato instante em que se deu conta do que acabara de fazer, uma mistura de culpa e alívio invadiu seu coração.

No caminho para casa, que terminaria de fazer a pé, sentiu-se fraco, um cansaço estranho. Foi perdendo as forças, o fôlego... De repente, já não sabia mais respirar. Era como se tivesse desaprendido ou seus pulmões simplesmente não o obedecessem mais.

Pensou na morena, nos meninos, no trabalho, em Deus e no Diabo, e mais uma vez maldisse o presidente, maldisse o infortúnio de ser pobre, num país que se orgulha de produzir pobres aos montes. Maldisse assim, mesmo que sem saber nomear, a desigualdade social, porque o problema não está na economia, não, visto que os grandes empresários nem se afetam com quaisquer crises, sejam elas motivadas por pandemias ou não. O problema reside é na má distribuição de renda.

Maldisse o fato absurdo de que tivesse um presidente capaz de orientar seu povo a voltar às ruas, quando a recomendação ao redor do mundo todo era exatamente contrária. Entendeu, na sua simplicidade de operário, que o presidente não estava de fato nem aí pro povo, afinal, quem ia morrer eram os pobres, que dependiam do sistema público de saúde, já tão defasado e desvalorizado pelo próprio governo.

Finalmente entendeu que vidas aqui não passam de números. Salvar a economia? A economia de quem? Morreu sem entender tudo.

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